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Filha recorda pai que desapareceu há oito anos

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Oito anos depois, não há uma pista, um sinal. A família interroga-se: o que terá acontecido?

“Eu pergunto-me porque tu nunca apareceste! Que fim terás tido para nem os teus ossos aparecerem… e essa dúvida persegue-me e dói-me todos os dias”, desabafa a filha de Reinaldo Ramos, desaparecido desde o dia 13 de maio de 2013 na aldeia do Milreu, Vila de Rei.

Na altura, Albertina Ramos lançou apelos, mobilizou amigos, GNR, vizinhos e familiares nas buscas, mas todas os esforços foram em vão. A única pista foi um colete encontrado entre Milreu e Vila de Rei. Reinaldo Ramos tinha 75 anos e era doente de Alzheimer.

Oito anos depois, a filha publicou um texto emocionante no Facebook como se fosse uma carta dirigida ao seu pai cujo destino permanece um mistério.

Querido Pai

Outro 13 de Maio… o oitavo desde aquele de 2013 em que te perdeste no mundo.

Sempre que desaparece alguém e é encontrado (por vezes em circunstâncias terríveis), porque tu nunca apareceste! Que fim terás tido para nem os teus ossos aparecerem… e essa dúvida persegue-me e dói-me todos os dias.

Tenho tantas saudades, pai!

Pensei que por estares doente o meu sofrimento iria ser menor, como se a morte fosse uma libertação para esses fantasmas que habitavam a tua cabeça naquela altura.

Mas, não! Esta dor e esta lembrança tão viva de quando eras são não me abandonam!

Sabes, pai: o mundo mudou. O meu mundo e o mundo de toda a gente.

Às vezes penso que o deixaste na altura certa pois conseguiste escapar a uma série de acontecimentos que te iriam tornar mais triste. Só assististe à morte do mano, e sei que foi o teu pior desgosto, mas entretanto já partiram dois dos teus irmãos, o meu marido e há um ano a mãe, teu amor durante mais de 50 anos.

Já te deves ter encontrado com ela… aí, onde nos reuniremos todos um dia. Sabes bem que, ao contrário de ti (e até de mim) ela amava a vida, queria sorvê-la até ao último trago, mas a mesma doença que levou o mano levou-a a ela, à traição…sem lhe dar tempo para lutar! Tens que ser paciente com ela, pai, que deve estar chateadíssima e, como sabes, “sobra sempre para o mesmo”!

O resto da família está bem. Eu, o mano, os meninos e as meninas… vamos todos vivendo com mais ou menos lágrimas, com mais ou menos silêncios… prometendo “viver um dia de cada vez”, mas transportando nesse dia a enorme bagagem que a puta da vida nos tem posto em cima! Ás vezes custa, pai!… mas tu sabes como isso é!

As minhas meninas continuam a ser o nosso orgulho, pai! A doutora já é mestra, a artista é famosa e a pequena está a crescer. As mais velhas já têm companheiros que as amam, o que me descansa bastante, pois o amor continua a ser a única coisa que vale realmente a pena.

O resto do mundo está feio, pai! No ano passado apareceu uma doença que nos mudou a vida… outra vez! As incertezas no futuro, o medo e as desilusões lembram-me a guerra que vivemos em 75… mas então eu tinha 15 anos e tu 35, pai… agora estamos ambos mais velhotes e com menos coragem para os desafios…

O teu sporting é campeão, pai…podes celebrar aí com o mano, que só daqui a outros 19 anos o farão!

As pessoas também estão feias, pai! Alguns matam os filhos, outros querem matar os que matam… trata-se a vida humana sem respeito porque ninguém já sabe o que é isso!

Há muitos pobres, pai! Pobres de pão e pobres de razão…

Sei que sofrerias por saber o estado em que a tua África está, mas olha que por aqui também há muita miséria… há gente que é menos gente só porque tem outra cor ou outra religião ou outra orientação sexual…

Não foi isso que me ensinaste, pai, (aliás, a nossa família é a maior prova disso com todas as cores, credos, clubes, políticas à mistura) … e por isso sofro!

A maior parte do tempo sinto que não sou daqui, mas isso tu sabes, pai… fui sempre a outsider da matilha… e tu até gostavas disso, confessa!!

Faltam dois anos para me reformar, pai… mas não sei se lá chego! A vida não me tem dado vontade de ser velha! 44 anos de serviço e amor à causa resumem-se numa total desilusão por falta de reconhecimento e respeito. Sabes o que sonhei ser grande, mas agora já não sonho. Resigno-me à pequenez a que alguns me obrigaram e espero que a lei do retorno um dia lhes mostre que a maldade não é o caminho.

E pronto, pai. Não te vou chatear mais… deves ter coisas mais interessantes para fazer do que ler os queixumes desta tua filha já velhota mas sempre desejando aninhar-se no teu colo.

Hoje é outro 13 de Maio, pai… 2920 dias de ausência, mas presente para sempre

Albertina Ramos

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Escrita por Redação

Blog informativo Tomar na Rede. Notícias sobre Tomar e região envolvente. Informação local e regional.

Comentários

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  1. chorei ao ler a tua carta pourque tenho um só filho de 64 anos e pourque me juntei com uma senhora ele deixou de conhecer o pai que toda a minha vida vivi para ele é triste mas a vida é assim desejo-lhesa maior felecidade do mundo beijos……….

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