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Inconvenientes da democracia

Opinião

Dizia já não sei quem, que a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros. Noutros termos, tem muitos defeitos mas ainda não se conseguiu arranjar nada melhor.

Eis um conto alusivo e elucidativo. Pura ficção, ornamentada com factos do conhecimento geral. Por vezes a ficção antecipa a realidade.

Acontece algures, na parte oeste da Europa, próximo do mar mas no interior, uma territa cada vez mais pequena mas linda, com uma população muito peculiar. Gostam muito de “meninas e vinho verde”, como referiu o ano passado aquele presidente holandês do eurogrupo, com um nome impronunciável por um latino.

No caso, adoram festas, comezainas bem regadas, discursos e passeatas. Tudo à custa do orçamento municipal.

Têm até uma festa grande, a que chamam a festa do pão. Que fazem só para cumprir a tradição. Um cortejo com milhares de figurantes. Na última edição desfilaram 700 pares, cada um com um cesto de 15 quilos de pão, o que dá a bonita soma de 10.500 quilos de pão, na sua maior parte atirados para o lixo nos dias seguintes.

Não admira portanto que a coisa tenha custado aos cofres municipais a bagatela de 600 mil euros. Leu bem. 600 mil euros, fora o resto. O que para uma população de 40 mil almas, metade das quais não pagam IRS, corresponde a 15 euros por cabeça. Uma autarquia rica é outra coisa. Mesmo não sendo uma rica autarquia.

Nessa mesma territa, a inclinação para as festas, para as comidas, para as ornamentações e para os divertimentos em geral, faz com alguns serviços essenciais vão ficando para trás. Isto porque, se sempre assim foi, no tempo da outra senhora notava-se menos. Dado que os presidentes de câmara e respectiva vereação não eram eleitos, mas escolhidos a dedo por Lisboa, não havia necessidade de comprar votos.

Agora é o que se vê. Até os bombeiros municipais já se queixam publicamente que a Câmara lhes retém os abonos governamentais e que não há meios humanos suficientes para cumprir cabalmente a missão que lhes está confiada.

Como uma desgraça nunca vem só, a limpeza urbana também está como sabemos. Alheio a estas minudências, que só servem para cansar a cabeça, um dia destes o meu amigo Reboredo, que Deus tenha em paz, escorregou numa casca de banana durante a sua caminhada diária, e bateu com a cabeça no lancil do passeio. Populares chamaram imediatamente o 112. Infelizmente, a carência de meios humanos levou a que a ambulância de suporte imediato de vida só tenha aparecido meia hora mais tarde. Já o saudoso Reboredo era cadáver. Vítima da falta de limpeza, da falta de meios humanos, da falta de critério e da falta de vergonha de alguns eleitos.

Mas teve um lindo funeral o cidadão Reboredo. Missa em Santa Maria e muita gente a acompanhar, destacando-se 4 pares vestidos a preceito e com os respectivos cestos da festa do pão. (O Reboredo integrou em vida uma das numerosas comissões da dita festa).

Foi bonito, lá isso foi. Mas não sei se moralmente aceitável.

                                                           Sebastião Andrade Vicente

Comentários

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  1. O autor que me desculpe. O problema não é a democracia mas sim a falta de exigência dos tomarenses de hoje. Como explicar a aceitação da mísera competência alternada PS – PSD quando a desgraça suicida da cidade é evidente. Para quem viveu noutros locais o que impressiona mesmo na maioria dos tomarenses é a sua falta de ambição.

    • Não tenho nada a desculpar-lhe. Pelo contrário. Agradeço o seu comentário, cuja justeza é indesmentível. O problema é mesmo esse: os principais, senão mesmo os únicos, inimigos de Tomar são os próprios tomarenses. Sobretudo aqueles que se consideram grandes amigos e defensores da sua terra. Os que proclamam que se respeite a tradição.
      Vai-se a ver é só treta. Querem é festas, blábláblá e pança cheia à custa do orçamento.

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