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Agrava-se a sangria demográfica 

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Pouco antes das recentes eleições presidenciais, Tomar na rede noticiou que, desde 2019, o concelho de Tomar perdeu quase trezentos eleitores. Escrito assim, “quase trezentos” e sem qualquer elemento para comparação, a questão passou despercebida.

Pensando num verso da Balada neve, “Fui ver, a neve caía…”, também fui ver. Eis o que encontrei. Entre 2013, início do primeiro mandato da actual maioria, e 2021, em 8 anos portanto, as perdas demográficas nalguns concelhos da região são as seguintes:

ABRANTES -menos 3.269 eleitores = -9,32%

TOMAR -menos 3.279 eleitores = -8,78%

OURÉM -2.394 eleitores = -5,52%

T. NOVAS -1.651 eleitores = -5,07

ENTRONCAMENTO -290 eleitores = -1,67%

PONTE DE SOR -961 eleitores = 6,45%

 

Temos assim que Tomar aparece como o 2º concelho da região com maior percentagem de fuga de eleitores, apesar de, em termos absolutos, ter perdido mais dez eleitores que Abrantes (3.279 e 3.269 respectivamente). Mas como Abrantes tem menos eleitores inscritos (31.806 e 34.031, respectivamente), a percentagem abrantina é mais elevada.

É gritante a diferença entre Abrantes e Tomar, por um lado, e Ourém, T. Novas e Entroncamento, por outro, separados por mais de três pontos percentuais.

Como já aconteceu em ocasiões anteriores, é praticamente certo que os ocupantes do poder e os seus apoiantes, em vez de admitirem que a situação é grave e que terão contribuído para o presente estado de coisas, não senhor. Tentam sacudir a água do capote, alegando que a hemorragia resulta da interioridade. O que é verdade. Estar longe da faixa costeira é uma das causas do despovoamento. Mas não explica tudo.

Quando se questionam as elevadas percentagens de Tomar e Abrantes, em contraste com Ourém, Torres novas e Entroncamento. Aparece a mesma lengalenga: Ourém é porque tem Fátima, T. Novas é porque tem a auto-estrada Lisboa-Porto, Entroncamento é porque tem a Linha do norte.

Não lembra a esses arautos que realmente têm tudo isso, todavia Ourém não tem Politécnico, não tem grande hospital, não tem rio, nem tem Regimento de Infantaria, mas já tem mais população que Tomar. Torres novas não tem o Convento de Cristo, e o Entroncamento não tem a Festa dos tabuleiros, por exemplo.

Mas parecem ter aquilo que vai faltando em Tomar, autarcas com capacidade para entender e tentar resolver os reais problemas concelhios.

Prova disso é o concelho de Ponte de Sor, 14 mil eleitores perdidos no interior do Alto Alentejo, que vai tentando e conseguindo levar a barca a bom porto, sem nenhuma das vantagens alegadas pelos anabelistas nabantinos.

Uma nota final: Que ninguém venha com crises de partidarite. À excepção de Ourém, todos os outros concelhos citados são governados pelo PS há mais de dois mandatos.

Mas a elevada percentagem de fuga de eleitores registada em Tomar só surpreenderá os menos atentos. Todos os que acompanham os assuntos concelhios sabem bem que a actual maioria socialista, apesar das promessas, ainda não resolveu o problema do Convento de Santa Iria, o saneamento no sector Rua Infantaria 15/Rua Joaquim Jacinto/ Rua do pé da costa, o estrangulamento da Estrada do convento, o caso da Estalagem de Santa Iria, a poluição do Rio Nabão, a recuperação do palácio Alvim, onde esteve a PSP, a ocupação adequada do Convento de S. Francisco, a abertura dos museus da Levada, etc. etc. etc.

Em contrapartida, arranjaram problemas que depois solucionaram com obras caríssimas, de utilidade prática muito contestável, como por exemplo a Av. Nun’Álvares ou a Várzea grande.

Parece reinar a confusão na área das prioridades. Mas os críticos é que são uns malvados.

                                                                          António Rebelo

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8 comentários

  1. Na demografia, e na sua evolução, temos o melhor indicador da “saúde” de cada localidade, ou região.
    Com os seus diferentes indicadores, podemos, por exemplo, ver o espelho da capacidade de regeneração da população (nascimentos), avaliar a energia que nela existe (estrutura etária), ou antecipar as necessidades da sociedade nas décadas vindouras (importância da população em cada escalão de idade).
    É a partir destes indicadores, e de outros, que se podem formular e aplicar as adequadas politicas locais, desde a educação à saúde.
    A radiografia que se faz ao Concelho de Tomar, nestes capítulos da Demografia, produz uma imagem desastrosa. Ou, se quisermos, de muitíssima preocupação. Que causa desalento. E com a População, anda a Economia, e vice-versa….
    Tomar, se nada for feito em contrario, desde já, será uma irrelevante povoação de província dentro de 2 décadas. Apesar de detentora de um monumento que é património mundial, e apesar de detentora de outras coisas.
    A população está a fugir, em especial as gerações mais novas. Com elas, se vai o sangue e a energia.
    A atividade económica, está a definhar e a minguar, com ela se vai o emprego e a capacidade de gerar riqueza.
    Este é o panorama geral das regiões e localidades do interior, alguém pode argumentar.
    Mas o que não pode ser negado, é que Tomar dispõe de recursos e de condições que não se conhecem em cidades congéneres.
    Temos ativos específicos para valorizar, existem cadeias de valor em que nos podemos inserir para crescer e desenvolver.
    Mas não, em vez disso, a Sociedade e a Economia local, minguam e regridem.
    Algo está muito mal, muito errado.
    Sendo uma tecla já gasta, temos que reconhecer que é à Camara Municipal que pertence a missão de comandar o combate a este estado de declínio, demográfico e económico.
    Mas a administração municipal existente, e as que a maioria das que a antecederam, nunca mostraram capacidade nem competência para tanto. Desgraçadamente.
    Dito isto, o que não é admissível, e é quase obsceno, é a atitude triunfalista dos autarcas que detêm agora o Poder, como se tudo estivesse bem, e como se tudo viesse a estar bem no futuro.
    Mas esse, o Futuro, é um conceito desconhecido para esta gente.
    O Futuro não ganha eleições…
    E já agora, e a propósito de exemplos:
    Qual será a visão desta administração municipal acerca das politicas de educação e de saúde, que são necessárias hoje para preparar o amanhã?
    Quais as politicas que estão, ou vão ser, aplicadas para atrair população e estancar o êxodo, e inverter o envelhecimento populacional??
    Sabemos, é complicado….

  2. Seria interessante saber porque deixaram de estar inscritos no concelho:
    – Mudaram-se para outro concelho?
    – Mudaram-se para o estrangeiro?
    – Nunca foram verdadeiros residentes (ex.: estudantes)?
    – Morreram?
    Isto ajudaria a compreender… qual a melhor estratégia para o bem estar de quem vive no concelho.

    1. São perguntas pertinentes João, porém de resposta muito dífícil, ou até impossível, com os recursos humanos disponíveis. Falta até a pergunta básica: Quem são os que se mudaram ou faleceram? E as subsequentes perguntas anexas: Eram homens? mulheres? jovens? reformados? com que nível de estudos?
      Quanto à sua última frase, a resposta parece-me estar implícita: a melhor estratégia é sempre a que evita a sangria demográfica. Investimento, criação de emprego, alojamento acessível, ambiente atractivo para quem queira fixar-se. Praticamente tudo o que falta nesta altura em Tomar. Apesar do “rebuçados” eleitoralistas.

  3. Não posso deixar de concordar com o que diz o A.Rebelo.
    Contudo, e para além da lista de problemas que elenca, acrescento mais 2:
    – O Agroal, pois eu sou do tempo em que houve quase um levantamento popular em Tomar quando se falou em desviar a água do Agroal para Fátima, e agora veja-se o que a Câmara de Ourém tem feito;
    – O aproveitamento do potencial da albufeira do Castelo do Bode.
    Mas, em minha opinião, a razão primeira da fuga das pessoas de Tomar é a falta de emprego. O Politécnico não fixa os estudantes, não têm oportunidades de trabalho, e uma boa parte dos professores vem de fora e não se fixa em Tomar

    1. Eu colei cartazes e participei na manifestação que refere, para defender o Nabão, liderada por Nini Ferreira, Antunes da Silva, Gouveia Pereira, Jerónimo Marceneiro…
      O aproveitamento do Agroal e da Albufeira do Castelo do Bode, que são dois recursos importantes para toda a região, designadamente para fins turísticos, ainda nem sequer começou no concelho de Tomar, porque falta o tal planeamento. Um plano de desenvolvimento turístico está a fazer cada vez mais falta, mas a câmara parece pouco ou nada interessada quando recebe propostas para a sua elaboração.
      Bem sei que há o péssimo exemplo daquele aborto a que abusivamente chamam PDM, mas daí a recusar novas ajudas nessa área, devia haver uma grande distância. Devia haver.

      1. Caro António Rebelo,

        O tal aborto que o é do PDM é mais um prego no caixão do concelho. Serve para em teoria indicar quais os solos e as suas utilizações, e este pelo pouco que consegui perceber é quase uma proibição total para quem queira investir, seja na indústria ( zona industrial?? ) seja no turismo zonas protegidas da albufeira e Agroal seja para uma simples habitação.
        Ao deixarem que fosse aprovado este aborto , condenamos aos intermináveis processos burocráticos e respetivos ” facilitadores” qualquer investimento.
        O tal programazinho que fala e que já o tinha desafiado a elaborar um rascunho ,é o que qualquer gestor tem de ter para poder gerir e medir os seus resultados.

        Particularmente difícil pois não estão disponíveis os dados financeiros atuais da CMT , encargos reais com o pessoal, financeiros, de gestão diária para saber o que se podia alocar a determinados objetivos para colocar no programa.

        Agora deixem de dizer que é a CMT que tem de investir e comandar a estratégia para o concelho.
        O que devia fazer era controlar os seus gastos e deixar aos investidores privados que é que sabem e que arriscam o seu dinheiro , promover o desenvolvimento. Não criem dificuldades para depois “oferecerem” benesses!!!

        1. Ilustre Fernando Vieira:
          Começo por pedir licença para assinalar uma divergência de fundo. No meu entendimento, o denominado PDM não é mais um prego no caixão do concelho. É a tampa do dito caixão. No mínimo.
          Numa autarquia que gasta com o seu pessoal mais de 40% do seu orçamento anual, pelo que não tem asas para grandes voos, mesmo com os fundos europeus, pretender regulamentar tudo e todos graças a um tosco documento que de plano só tem o nome, eis algo que já não se pratica, nem mesmo para lá de Varsóvia, Minsk ou Moscovo.
          Até os chineses já mudaram de agulha na área económica, com os excelentes resultados que estão à vista de todos. Bastou-lhes para tanto a hoje célebre parábola de um dirigente do PC: “Pouco importa a cor do gato, importante é que cace ratos.”
          Gente pouco lida e pouco viajada, salvo uma ou outra excepção, os senhores camaristas agarram-se a normas do século passado, que antes de aparecerem já estavam caducas. Num concelho que vive literalmente à custa do Estado, compreende-se que a população a tudo assista impávida e serena. Impera o medo. O adágio segundo o qual “O calado foi a Lisboa e veio sem pagar bilhete” é bem tomarense.
          O problema é que a economia não se compadece com o imobilismo. Sem investimento não há emprego produtivo, e sem emprego produtivo não há crescimento económico. Resta, é claro, o emprego público, mas se a autaquia já gasta mais de 40% do orçamento com despesas de pessoal “certas e permanentes”, não pode ir muito mais longe. Mesmo que quisesse. E os tomarenses jovens, com ou sem formação superior, vão pegando na mala e votando com os pés.
          Parece ser prioritário suspender imediatamente o dito PDM, e arranjar um plano de desenvolvimento local mais adequado, nomeadamente na área do turismo. Terá a câmara tempo e coragem para isso? Tenho as minhas dúvidas. Mas a esperança é sempre a última coisa a morrer.

        2. O PDM revisto, pelo que me chegou aos ouvidos, nem chega a ser um plano. É mais um caixão para o enterro do concelho. Aquilo já nem se usa lá para as bandas dos antigos planos quinquenais, sob a batuta da então União soviética. É um absurdo que uma câmara que gasta mais de 40% com o seu pessoal e cujo orçamento é inferior ao Torres novas, que tem menos população, pretenda impôr os pontos de vista dos seus técnicos em todo o concelho. Com que fim?
          Com se não bastasse, os actuais partidos do executivo já demonstraram que não têm qualquer instrumento de planeamento adaptado aos tempos que correm, nem sequer uma simples ideia de futuro para o concelho. Se lhes perguntarem como querem que seja Tomar daqui a 10 anos, não saberão responder, para além das habituais generalidades.

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