Celebra-se hoje, 4 de março, o Dia Mundial da Obesidade, uma doença crónica que aumenta drasticamente o risco de diabetes, doenças cardiovasculares e cancro.
A propósito do tema, publicamos a seguir três textos de três especialistas sobre “Obesidade e fígado: um alerta para a saúde”, “O impacto do excesso de peso na saúde da coluna” e “Redefinição de obesidade”:
Redefinição de obesidade
Texto de Isabel Fonseca, Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna / Coordenadora do Núcleo de Estudos de Obesidade
“Durante décadas, a obesidade foi erroneamente reduzida a uma questão de “falta de força de vontade” ou a um simples desequilíbrio entre calorias ingeridas e gastas. No entanto ao chegarmos a 2026, a ciência médica impõe uma nova narrativa: a obesidade é uma doença crónica, complexa e reincidente, ditada muito mais pela biologia e pelo ambiente do que por escolhas individuais isoladas.
Os novos conceitos sobre a doença, redefiniram a obesidade. Deixou de ser uma doença definida apenas pelo índice de massa corporal, que isoladamente perdeu o protagonismo, passando a focar-se no excesso do tecido adiposo, na avaliação da distribuição da gordura corporal e no seu impacto funcional nos diferentes órgãos. Quando o excesso de gordura corporal causa sobrecarga nos órgãos ou compromete a saúde de forma objetiva, o tratamento deve ser imediato.
A compreensão dos mecanismos cerebrais e intestinais implicados na obesidade, conduziram aos avanços farmacológicos dos últimos anos, com perdas ponderais significativas, que se aproximam dos resultados clínicos obtidos com a cirurgia bariátrica. O sucesso destes medicamentos é bem conhecido, mas o seu acesso é limitado por questões económicas, atingindo os grupos populacionais mais vulneráveis. A eficácia do tratamento não é medida pelo ponteiro da balança, mas sim pela melhoria dos parâmetros metabólicos, do risco cardiovascular ou da mobilidade do doente obeso. Tratar a obesidade é também contribuir para a remissão de muitas outras doenças crónicas que afetam a nossa população, como seja a diabetes mellitus, a hipertensão arterial ou a dislipidemia.
A manutenção da perda ponderal é outro dos desafios do doente e dos profissionais, e neste contexto, o tratamento desta doença deve incluir diferentes abordagens simultaneamente ou sequencialmente, de forma prolongada, e tendo em conta os objetivos individuais, os benefícios e os seus riscos, e sempre associada a um estilo de vida saudável.
Apesar dos grandes avanços conseguidos, ainda não vencemos a obesidade, o que significa que devemos incluir no tratamento da doença, medidas que promovam o exercício físico, e a escolha de alimentos saudáveis.
Muitos profissionais de saúde, dos cuidados de saúde primários aos cuidados hospitalares e sociedades científicas têm trabalhado para garantir que o tratamento esteja acessível para todos os doentes, e todos desejam que num futuro próximo se consiga dizer, que combatemos a obesidade. Quem sabe num futuro artigo, e de preferência que não seja longínquo”.
Dia Mundial da Obesidade: O impacto do excesso de peso na saúde da coluna
Artigo de opinião de Pedro dos Santos Silva, Coordenador da Unidade Funcional de Patologia Raquidiana, Serviço de Neurocirurgia, ULS São João, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Patologia da Coluna Vertebral (SPPCV)
“A obesidade é um dos principais problemas de saúde pública da atualidade. É transversal a todas as idades e contribui para múltiplos problemas de saúde, como diabetes, hipertensão arterial, doenças cardíacas e problemas respiratórios, tanto no imediato como a longo prazo. O excesso de peso sobre as articulações provoca desgaste e dores crónicas em vários pontos da estrutura óssea do corpo, incluindo a coluna vertebral.
A coluna vertebral é constituída por múltiplas vértebras unidas entre si por discos intervertebrais e articulações facetárias. Está integrada num sistema complexo de músculos e ligamentos. Oferece sustentação ao corpo e permite movimentos essenciais para as atividades do dia a dia. Além disso, protege as estruturas nervosas responsáveis pela comunicação entre o cérebro e o resto do corpo.
Quando existe excesso de peso, há um aumento significativo da carga exercida sobre as estruturas da coluna, levando ao seu desgaste acelerado. Podem surgir patologias estruturais como artrose das articulações, hérnias discais e estenose do canal vertebral. Estas situações podem causar dor, incapacidade e sintomas neurológicos, como alterações da força e da sensibilidade.
Mesmo na ausência destas alterações estruturais, a obesidade está associada a maior prevalência de dor lombar crónica. Pessoas com excesso de peso têm maior probabilidade de desenvolver dores persistentes, com impacto negativo na qualidade de vida, no sono, na mobilidade e na capacidade de trabalho.
No contexto de uma opção cirúrgica a obesidade também representa um fator de risco relevante. Está associada a maior probabilidade de complicações, como infeções, e a piores resultados funcionais após cirurgia da coluna. Isto não significa que pessoas com obesidade não possam beneficiar de cirurgia em casos específicos, mas reforça a importância da otimização do estado geral de saúde antes de qualquer intervenção.
Por outro lado, sabemos que muitos destes problemas podem ser prevenidos com a adoção de hábitos de vida saudáveis. Medidas simples e consistentes podem ter um impacto positivo nas dores crónicas, na incapacidade, nas complicações cirúrgicas e nos resultados clínicos. Os dois pilares de uma vida saudável são a atividade física regular e uma alimentação equilibrada.
A prática de exercício físico é fundamental, idealmente diária ou pelo menos três vezes por semana. Devem privilegiar-se exercícios de baixo impacto, como caminhadas, pilates, hidroginástica ou natação. Atividades que reforcem os músculos abdominais e lombares melhoram a estabilidade da coluna e reduzem o risco de lesões.
Uma alimentação equilibrada é igualmente essencial. A dieta deve ser rica em vegetais, fruta, proteínas magras (como carnes brancas e peixe) e cereais integrais. Devem ser evitados alimentos de elevada densidade energética, ricos em gorduras e produtos ultraprocessados com elevado teor de açúcares simples. Estes alimentos dificultam a perda de peso e contribuem para um estado inflamatório no organismo.
Outras medidas importantes incluem uma boa higiene do sono, com horário regular e objetivo de cerca de oito horas diárias. Devemos também evitar o sedentarismo prolongado, fazendo pequenas pausas ao longo do dia para alongar e movimentar o corpo.
Neste Dia Mundial da Obesidade, vale a pena lembrar que o excesso de peso afeta muito mais do que a imagem corporal. Trata-se de um problema de saúde com consequências a curto e longo prazo, incluindo na saúde da coluna vertebral. Pequenas mudanças diárias podem fazer uma diferença significativa na proteção da coluna e do bem-estar geral”.
Obesidade e fígado: um alerta para a saúde
Artigo de Opinião de Mariana Verdelho Machado, Serviço Digestivo, Fundação Champalimaud; Serviço de Gastrenterologia, Hospital de Vila Franca de Xira; Clínica Universitária de Gastrenterologia, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
“O excesso de peso e a obesidade são a pandemia do século XXI. Nos últimos 50 anos, o número de pessoas afetadas quase triplicou em todo o mundo. Em Portugal, cerca de uma em cada cinco pessoas tem obesidade e mais de metade da população excesso de peso ou obesidade.
A obesidade aumenta o risco de morte em cerca de 20% quando comparado com pessoas com peso adequado, sendo esse risco o dobro na obesidade mórbida. As principais causas de morte em obesos são as doenças cardiovasculares e o cancro, que representam cada uma quase um terço dos casos. As doenças do fígado também têm um papel importante, sendo responsáveis por uma percentagem de mortes cerca do dobro da observada em magros, mas ainda assim correspondendo a apenas 2,5% das mortes em obesos.
A doença do fígado associada à obesidade chama-se doença hepática esteatósica associada a disfunção metabólica, anteriormente conhecida como “fígado gordo”. Está presente em 4 em cada 5 pessoas com obesidade. Nesta situação, acumula-se gordura no fígado que não é inofensiva podendo causar inflamação (uma forma mais grave chamada esteatohepatite) e levar a processos de reparação e cicatrização hepáticas patológicas com desenvolvimento de fibrose. Em alguns casos pode evoluir para cirrose hepática e até para cancro do fígado. Felizmente, apenas cerca de 10% das pessoas com esta doença vão desenvolver cirrose. Contudo, a presença de gordura no fígado não deve ser desvalorizada, já que é um sinal de que existe uma perturbação global do metabolismo, e está associada a um maior risco de doenças cardiovasculares e de cancro, mesmo entre pessoas que já têm obesidade.
A boa notícia é que na maioria dos casos, desde que não exista já uma cirrose estabelecida, a doença hepática associada a disfunção metabólica pode melhorar e até regredir. Para isso, é essencial mudar os estilos de vida. O objetivo não é apenas a perda de peso, mas uma melhoria global no metabolismo.
A alimentação deve ser equilibrada e com menos calorias, seguindo um padrão semelhante ao da dieta mediterrânica: evitando as gorduras saturadas e os açucares processados, e dando prioridade aos vegetais, preferir o peixe à carne e usar o azeite como principal fonte de gordura. É igualmente importante ter atenção às bebidas. O consumo de álcool deve ser evitado ou ser muito moderado (no máximo 2 a 3 copos por semana) e deve haver tolerância zero para os refrigerantes e para os sumos de fruta (mesmo os naturais que contêm grande quantidade de açúcar da própria fruta).
A prática do exercício físico é fundamental e traz benefícios mesmo quando não há perda de peso. O ideal é fazer pelo menos 150 minutos por semana de atividade física moderada, mas qualquer aumento no nível de atividade já trará benefício. Por exemplo, apenas 5 minutos diários de exercício moderado estão associados a uma redução de cerca de 6% no risco de morte.
Quando indicado, os fármacos para a obesidade e a cirurgia bariátrica poderão ter um papel não só no tratamento da obesidade, mas também no tratamento da própria doença do fígado”.

