O aviso já tinha sido passado por mais do que uma vez e por mais do que um cidadão aos bombeiros de Tomar, mas as respostas foram no sentido de que:
– “já sabiam”, ou “não tinham pessoal disponível”, ou “já tinham informado o departamento veterinário da Câmara”, ou “não havia escada”… (!)
O animal, um gato preto jovem, encontrava-se há vários dias preso num telhado esventrado e em ruína de dois armazéns devolutos, situados entre a discoteca Rio Bar e um novo edifício em construção, na margem direita do rio Nabão, miando para quem passava.
Na manhã desta sexta feira, dia 28, um cidadão anónimo de 70 anos, revoltado com a respostas obtidas (ou a falta delas), decidiu de motu próprio, dentro do seu conhecimento de animais e das suas capacidades físicas, proceder de forma engenhosa à libertação do animal.
(Gatos: importa esclarecer que os gatos, pelas suas capacidades atléticas, equilíbrio e coordenação motora, conseguem aceder aos sítios mais inimagináveis, realizando verdadeiras proezas, sendo que por vezes a máxima – errada! – de que “se ele entrou, há de sair pelo mesmo sítio” não se aplica, pois subir é uma coisa e descer, mecanicamente é outra, e o gato, bem ciente das alturas e dos riscos, tem medo.)
O problema do gato foi resolvido por um cidadão da “3ª idade” e o bichano lá foi à sua vida.
O cidadão anónimo que conseguiu resgatar o gato do telhado no dia 28 – e que quer continuar anónimo – esclarece como foi feito o resgate do animal:
“Conheço muito bem os gatos. Por muito equilibristas que sejam, há um limite, e eles medem bem as alturas e os riscos, e por isso, onde ele estava /como ele estava, nunca iria sair. Por isso é que já lá estava há dias.
Já tinha havido quem tentasse ajudar – mérito a essas pessoas – empoleirando, em equilíbrio precário, uma espécie de “escada” pequena, daquelas que se usavam antigamente nas chaminés dos prédios, pelo lado de fora, aproveitando um ferro que saia da parede do imóvel em construção. Outros não quereriam saber disso para nada.
No entanto, a “escada” de ferro estava na vertical, era incompleta e tinha os “degraus” muito fininhos e com muito espaço entre eles. Uma tábua das obras que alguém também colocara entre o muro cinzento de betão e a parede do armazém, estava também praticamente a pique e nem chegava ao telhado, pelo que o gato nunca se atreveria a tentar a fuga por ali, pois não tinha inclinação nem sustentação.
Tive de subir para o muro de betão e armar-me em equilibrista (quem quiser que verifique a altura para o lado oposto das obras, para o lado dos armazéns!), esticar um braço ao máximo para cima, para colocar um bocado de comida húmida de cão no “degrau” mais alto da “escada” de ferro a que conseguisse chegar (o que me valeu foi o meu metro e oitenta, mas sempre com medo de cair para o lado dos armazéns devolutos, pois o resultado não seria nada bom!), depois, descido dali, reposicionar uma tábua para a encostar em diagonal, como um “escorrega”, à parede em obras (mas que ainda assim não chegava à escada), e ainda por fim uma pesada palete das obras, tudo isto feito do lado das obras.
O gato, ao sentir o cheiro da comida, andou a rondar a “escada” e tentou quase em pino, de cabeça para baixo, ver se com uma das patas dianteiras apanhava a comida (uma coisa de circo!). Fez várias tentativas, até que inclinado e esticado ao máximo para baixo, acabou por se desequilibrar, mas direcionou no ar a queda para a tal tábua em diagonal (o lado oposto, sabia ele que era a sua morte), e por ali escorregou num desequilíbrio meio trapalhão mas ao mesmo tempo controlado, e depois então saltou para o piso das obras, onde eu já tinha retirado previamente várias pedras, cascalho e restos de tijolos que o poderiam magoar na “aterragem”, caso ela se viesse a dar por ali, o que felizmente aconteceu.
(Curiosidades felinas: Os gatos têm mais 3 vértebras do que o normal, além de que a sua grande flexibilidade lhes permite torcer a coluna 180 graus ou mais, ou seja, por exemplo numa queda de costas, o gato, no ar, ainda tem a metade posterior do corpo e patas traseiras viradas para cima, mas já se torceu todo e rodou a metade anterior do corpo, patas dianteiras e cabeça para baixo! Por isso se diz, e é quase sempre verdade que “os gatos caem sempre de pé”. No entanto, há limites para tanta acrobacia e contorcionismo, e eles às vezes saem-se mal, pois uma coisa são 3 metros de queda outra são 10 ou 15…
Outra coisa curiosa é que a dimensão dos grandes bigodes de ambos os lados do focinho dos gatos, lhes permitem “medir” buracos por onde passar, até no escuro completo, ou seja, o gato sente o tocar dos bigodes nas extremidades do buraco, sabe mentalmente que tem espaço para passar a cabeça, sabe também que passando a cabeça, o resto do corpo, normalmente longilíneo, também passará, quase como uma cobra.)




1 comentário
Li com atenção a notícia sobre o cidadão de 70 anos que terá conseguido libertar um gato que se encontrava há vários dias enclausurado num telhado em Tomar.
O gesto do cidadão merece reconhecimento, mas a história deixa demasiadas perguntas por responder – algumas delas bastante mais importantes do que saber quem acabou por retirar o gato.
Segundo a notícia, várias pessoas terão alertado os Bombeiros de Tomar ao longo dos dias e terão recebido respostas como «já sabiam», «não tinham pessoal disponível», que «já tinham informado o departamento veterinário da Câmara» e, numa das situações, que «não havia escada».
Se foi efetivamente isto que aconteceu, então é legítimo questionar a atuação ou a falta dela.
Comecemos por esclarecer uma coisa: um gato em cima de um telhado não significa automaticamente uma emergência que obrigue à mobilização imediata dos bombeiros.
Os bombeiros também não têm de colocar os seus operacionais em risco para salvar um animal, muito menos tratando-se, segundo a própria notícia, de uma estrutura degradada e em ruína.
Mas este caso tem uma particularidade. Segundo é relatado, o animal não estava simplesmente a passear num telhado. Estaria enclausurado há vários dias, miando insistentemente e aparentemente sem conseguir sair.
Perante sucessivos alertas, a questão deixa então de ser apenas «porque é que os bombeiros não foram buscar o gato?».
A primeira pergunta é muito mais simples: A ocorrência foi avaliada? Alguém se deslocou ao local para verificar se o animal estava efetivamente em perigo? Foi feita uma avaliação das condições de segurança e dos meios necessários para um eventual resgate?
E, caso os Bombeiros de Tomar não tivessem condições ou competência para resolver a situação sozinhos, houve articulação com outra entidade?
Sendo que esta questão ganhou, aliás, um novo enquadramento legal há poucas semanas, com a Lei n.º 38/2026, de 3 de agosto, passou a integrar expressamente no âmbito de atuação da proteção civil a busca, o salvamento e o socorro animal, alterando para esse efeito a Lei de Bases da Proteção Civil, o enquadramento da proteção civil municipal e o Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro.
Isto não quer dizer que a nova lei obrigasse automaticamente os Bombeiros de Tomar a subir àquele telhado. Seria uma interpretação simplista da lei.
Mas significa que também já não faz sentido encarar institucionalmente o salvamento de animais como uma matéria completamente estranha ao sistema de proteção e socorro.
E depois existe a Câmara Municipal. Se, como refere a notícia, os Bombeiros comunicaram a situação ao departamento veterinário da Câmara Municipal de Tomar, há uma pergunta óbvia: O que aconteceu depois? O alerta foi recebido? Foi avaliado? Alguém se deslocou ao local? Foi tentada alguma solução?
E existe ainda outra entidade que não aparece nesta história: o SEPNA. A GNR, através do Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente, tem competências em matéria de proteção animal e existem inúmeros exemplos de intervenções do SEPNA no resgate de animais após denúncias de cidadãos.
O SEPNA foi contactado? Se não foi, porquê? Se os bombeiros não tinham meios para retirar o animal e o serviço veterinário municipal já tinha sido informado, porque não existiu uma articulação entre Bombeiros, Proteção Civil Municipal, serviços veterinários e GNR/SEPNA?
É precisamente para situações em que as competências e os meios estão distribuídos por diferentes entidades que a articulação deve existir.
E depois chegamos à frase que talvez mais me tenha chamado a atenção em toda a notícia: «Não havia escada.» Que escada? Pode parecer um pormenor, pois, mas não é.
Tomar tem uma autoescada adquirida pelo Município por cerca de 200 mil euros que deveria ter sido entregue aos Bombeiros em setembro de 2025. Em abril deste ano continuava fora da corporação, depois de a Câmara Municipal se ter recusado a recebê-la devido aos problemas detetados no equipamento.
Não estou a afirmar que aquela viatura fosse necessária para salvar este gato. Pode perfeitamente não ter sido. Uma autoescada não é a mesma coisa que uma escada portátil e desconhecemos a altura do edifício, as condições de acesso, os equipamentos disponíveis naquele momento e o significado concreto da resposta «não havia escada».
Precisamente por isso é necessário perguntar: Que meio faltava? Não existia uma escada adequada àquela intervenção? Era necessário um equipamento de trabalho em altura específico? Os meios estavam empenhados noutras ocorrências?
Ou a ausência da autoescada que deveria estar ao serviço dos Bombeiros de Tomar desde setembro de 2025 condicionou, de alguma forma, a capacidade de resposta?
Esta resposta é importante. Porque, se a falta de um equipamento adequado condicionou realmente uma operação de salvamento, então a questão deixa de ser apenas a de um gato. Hoje era um gato. Amanhã pode ser uma pessoa.
Há ainda outro cuidado que considero importante. O facto de um cidadão de 70 anos ter conseguido libertar o animal não demonstra que os bombeiros também o poderiam ter feito em segurança.
A notícia refere apenas que encontrou uma solução «engenhosa», mas não explica qual foi essa solução. Entrou no edifício? Subiu ao telhado? Utilizou uma escada? Criou uma passagem para o animal? Correu algum risco? Não sabemos.
E se aquele cidadão decidiu assumir um risco pessoal numa estrutura degradada, isso não significa que um comandante pudesse ou devesse autorizar os seus operacionais a fazer exatamente o mesmo.
Por isso, não transformemos este caso numa discussão simplista entre «um cidadão conseguiu e os bombeiros não quiseram».
A questão é bastante mais séria. Se várias pessoas alertaram durante vários dias para um animal aparentemente enclausurado, alguém deveria ter avaliado a situação.
Se não competia aos Bombeiros resolver, deveria ter existido encaminhamento. Se o Município foi informado, deveria existir uma resposta. Se era necessária intervenção no âmbito da proteção animal, existe o SEPNA.
Se eram necessários meios técnicos de salvamento em altura, deveria ter sido encontrada uma solução ou solicitado apoio.
O que não parece razoável é que, num concelho onde existem Bombeiros, Serviço Municipal de Proteção Civil, serviços veterinários e forças de segurança com competências de proteção animal, uma situação conhecida durante vários dias aparentemente tenha ficado sem solução até aparecer um cidadão de 70 anos disposto a resolver o problema.
E é também aqui que considero que a própria notícia fica aquém. São apresentadas respostas atribuídas aos Bombeiros de Tomar que levantam questões sérias, mas falta ouvir oficialmente os Bombeiros. Falta ouvir a Câmara Municipal. Falta perguntar ao serviço veterinário se recebeu o alerta e o que fez. Falta saber se o SEPNA foi contactado.
Falta perceber o que significava exatamente «não havia escada». E falta explicar como foi realizado o salvamento. O cidadão merece os parabéns pelo gesto.
Mas, para mim, a verdadeira notícia não termina quando o gato sai do telhado. Começa aí. Porque agora falta responder a uma pergunta muito mais incómoda: Se tanta gente sabia que o animal estava ali, como foi possível que, durante vários dias, aparentemente ninguém tivesse conseguido assumir, coordenar ou encontrar uma solução?
Essa resposta interessa muito mais do que descobrir quem fica com os louros pelo salvamento.