Entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, a pluviosidade foi excecionalmente elevada. O IPMA analisou os registos de precipitação nas estações udométricas espalhadas pelo país e concluiu que este trimestre foi o segundo mais chuvoso desde 2000 e que o ano hidrológico de 2025/26 está a ser o mais chuvoso dos últimos 25 anos[1]. Os primeiros 15 dias de fevereiro tornaram-no o mais chuvoso dos últimos 47 anos[2]. Esta acumulação de precipitação manteve elevado o risco de ocorrência de cheias na cidade de Tomar.
As cheias são fenómenos naturais de aumento do nível da água de um rio, que acontecem com diferentes intensidades e períodos de retorno[3]. A sua frequência e magnitude dependem de fatores como a precipitação, a morfologia da bacia hidrográfica e o uso do solo.
Para minimizar os efeitos das cheias, podem ser implementadas diversas medidas. Muitas correspondem a soluções de controlo na origem, isto é, estratégias que visam gerir a precipitação no local onde ocorre, reduzindo o volume de água e a velocidade de escoamento para jusante[4]. Exemplos destas soluções incluem bacias de retenção e soluções baseadas na natureza, como o restauro de zonas húmidas, a reflorestação e a renaturalização dos cursos de água, que favorecem a infiltração e retardam o escoamento superficial. Estas abordagens podem ser complementadas com as chamadas soluções estruturais, como a construção de barragens, açudes, diques ou até o desvio de cursos de água.
No concelho de Tomar, o rio Nabão passa pelo Agroal, zona desportiva, Ponte Velha, Levada, Ponte Nova, Flecheiro, São Lourenço e Marianaia, até desaguar na margem direita do rio Zêzere, na Asseiceira.
O Parque Ribeirinho do Flecheiro, localizado já depois do centro histórico, não tem um impacto significativo no controlo da cheia no centro histórico. Quando muito, o Parque Ribeirinho do Flecheiro poderá contribuir para a atenuação de um potencial efeito de regolfo: na presença de obstáculos ou de estreitamentos, a secção de escoamento reduz-se, podendo criar-se um estrangulamento que dificulta a passagem da água e provoca o seu recuo. O que contribuiu efetivamente para a atenuação da cheia do rio Nabão foi o desassoreamento do rio ocorrido entre 2019 e 2021[5] e o coletor pluvial que descarrega as águas pluviais do centro histórico a jusante, no Flecheiro[6].
Tem havido comparações entre o Parque Urbano da Várzea[7], em Setúbal, e o Parque Ribeirinho do Flecheiro. No que respeita ao controlo das cheias em ambas as cidades, o Parque Urbano da Várzea tem efetivamente uma influência na atenuação de caudais na zona ribeirinha de Setúbal, por ficar a montante[8] e, neste aspeto, as duas obras não são comparáveis.
O último registo de uma cheia em Tomar que afetou o centro histórico remonta ao ano 2006, quando o nível no Agroal ultrapassou os 5 metros. A consulta ao SNIRH[9], Sistema Nacional de Informação sobre Recursos Hídricos, da Agência Portuguesa do Ambiente, permite verificar os níveis instantâneos máximos anuais no Agroal desde 1979 e confrontar os registos com as cheias que afetaram o centro histórico: 1989 – 5,26 m; 2000 – 6,34 m; 2006 – 5,43 m. Os níveis máximos a que o Nabão chegou no Agroal até 18 de fevereiro de 2026 ultrapassaram ligeiramente os 4,5 m (12/02/2026 00:00:00 – 4,68 m).
O centro histórico foi poupado pela cheia, mas isso deveu-se à conjugação dos fatores distribuição da precipitação, desassoreamento do rio Nabão e desvio do caudal pluvial do centro histórico para jusante.
Joana Simões
[2] https://www.ipma.pt/pt/media/noticias/news.detail.jsp?y=2026&f=Periodo_excepcional_precipitacao.html
[4] Jusante designa o lado para onde se dirige o rio, em direção à foz
[6] https://www.cm-tomar.pt/images/CMT/municipio/documentos/DGT/PP-2024/Mercado-flecheiro/Relat_fund.pdf
[7] https://acbpaisagem.com/parque-urbano-da-varzea-de-setubal/ e https://eco.sapo.pt/2026/02/10/um-parque-imergiu-e-a-cidade-escapou-as-cheias-setubal-da-nota-positiva-a-sua-bacia-de-retencao/
[8] Montante designa a direção contrária ao fluxo de água, em direção à nascente
[9] https://snirh.apambiente.pt

