O Grupo de Amigos do Aqueduto do Convento de Cristo realizou uma conferência de imprensa na tarde desta segunda feira, dia 26, na Casa da Água dos Pegões.
O porta voz do grupo, Rui Ferreira, leu uma declaração na qual começou por fazer um historial das iniciativas com o objetivo de restauro e conservação deste monumento do séc. XVI e XVII.
A degradação do aqueduto é “provocada não apenas por atos danosos, mas também por má gestão das diversas entidades que, de um modo direto ou indireto, podem e devem ser convocadas a tutelar este Monumento”, denuncia o grupo.
Por fim, deixa um apelo: “impõe-se que mereça a atenção tanto das entidades públicas e de direito privado, como de todos aqueles que visitam a Região e a cidade de Tomar, na sua unidade cultural, na diversidade de recursos que a caracterizam como destino turístico muito singular, no contexto global”.
A seguir transcrevemos o comunicado lido na conferência de imprensa:
GRUPO DE AMIGOS DO AQUEDUTO
DO CONVENTO DE CRISTO
Declaração à Comunicação Social
O troço mais antigo do Aqueduto do Convento de Cristo conta hoje com aproximadamente quatro séculos de existência. É amplamente reconhecido que ao longo do período em que esteve em funcionamento, especialmente até 1834, foi regularmente sujeito a trabalhos de manutenção.
Sabemos também que 100 anos após a extinção do Convento, com a passagem da sua Cerca Conventual para a esfera estatal e a criação da Mata dos Sete Montes, o aqueduto continuou a ser objeto de reparações, algumas de grande monta, e sempre suportadas pelo erário público. No entanto a atenção e ajuda do Estado diminuiu gradualmente, cessando por completo nos finais dos anos 70, altura que ia deixando de correr a pouca água que ainda havia.
Em 1983, o Convento de Cristo é elevado a Património da Humanidade. De fora ficariam duas peças chave para a cabal interpretação do espaço monástico de Tomar, – o Aqueduto e a Cerca do Convento.
Nos finais dos anos 80, reconhecida que era a degradação do aqueduto, surgiram também as primeiras ações de limpeza, por parte da associação pioneira na defesa do património, o CEPPRT – Centro de Estudos e Proteção do Património da Região de Tomar. A mobilização das pessoas foi relevante nesse contexto.
No ano 2000, o então denominado Instituto Português do Património Arquitetónico – IPPAR, no exercício da sua missão e competências, anunciou através um importante documento programático intitulado “2000-2006 – Balanço e Perspetivas”, um conjunto de intervenções a desenvolver e executar em duas fases; A primeira contemplava a recuperação, reabilitação, restauro e valorização do Convento de Cristo e dos seus sistemas hidráulicos, nomeadamente o Aqueduto, para o qual a ação inicial seria o “levantamento integral e deteção dos problemas mecânicos mais graves”; Na fase seguinte preconizava-se o restauro efetivo do aqueduto e até a “tentativa de restabelecimento de um circuito de visita”. Nenhuma destas propostas programáticas foi, no entanto e inexplicavelmente, concretizada.
Nove anos passados, em 2009, a Associação Internacional dos Restauradores sem Fronteiras foi desafiada por tomarenses a levar a cabo a atividade MemoBlitz que procurou, juntando público, voluntários e especialistas, identificar os múltiplos problemas do aqueduto mas também as potencialidades da sua paisagem envolvente. Desta intensa atividade, resultou um conjunto de documentação apresentada às instituições responsáveis pelo património nacional. Tal como antes, foi agora esta organização que não recebeu qualquer feedback institucional.
Em 2013, a Divisão de Salvaguarda do Património Arquitetónico e Arqueológico da DGPC, responsável também pela ligação à UNESCO, em resposta a uma interpelação apresentada por escrito por cidadão preocupado com o abandono do aqueduto, informa sobre a proteção legal que o imóvel detém, nomeadamente as zonas de proteção do vale dos Pegões e a faixa de 50 metros no restante traçado, e terminava o seu ofício do seguinte modo:
“O grau de Monumento Nacional confere a um imóvel a mais elevada proteção existente para imóveis classificados em Portugal, e os bens culturais incluídos na lista do Património Mundial integram, para todos os efeitos e na respetiva categoria, a lista dos bens classificados como de interesse nacional, dispondo exatamente da mesma proteção caso não já estivessem classificados como tal.”
Assim como por estas razões, rematava a sua missiva afirmando que “o assunto não lhe merecia uma acuidade especial,” não deixando também de anunciar que “há intenção de, a médio prazo, se proceder à inclusão do aqueduto na sua totalidade, na lista do Património Mundial”.
Animados também, por este anúncio e sua perspetiva, em 2014 forma-se de modo livre, muito espontâneo e empenhado, o Grupo dos Amigos do Aqueduto do Convento de Cristo. Desde então, e ao longo de mais de dez anos, levámos a cabo e colaborámos em inúmeras iniciativas, como limpezas de vegetação e lixo, visitas temáticas, Colóquios e Conferências, caminhadas, ações de reflorestação, filmes e documentários, entrevistas, etc..
Um destes colóquios ocorreu logo em 2016, na Quinta dos Pegões. Nele participaram especialistas de diversas áreas patrimoniais e desses trabalhos públicos, saiu um conjunto de conclusões estruturadas dirigido a muitas entidades com ligações e responsabilidades nesta matéria, desde logo, o Ministério da Cultura.
Neste documento fundamental alertámos e apelámos ao Senhor Ministro para tomar diversas medidas, com carácter de urgência, nomeadamente, e entre outras:
- Definição e concretização de um Plano de efetiva Salvaguarda e Restauro do Aqueduto do Convento de Cristo;
- Concretização, em estreita colaboração Comissão Nacional Portuguesa do ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios), na qualidade de organismo consultivo da UNESCO para o património mundial cultural, das ações e procedimentos indispensáveis à integração do Aqueduto no perímetro de Classificação do Conjunto Monástico do Convento de Cristo, como Património Mundial da Humanidade”
Resultado? Nada! Nenhuma resposta nos foi dada, por qualquer uma das entidades destinatárias!
Em suma, no seguimento de abordagens colaborativas, quer teóricas e técnicas, quer de natureza prática de manutenção e limpeza ao longo de mais de 40 anos, diversos setores da comunidade tomarense pugnaram pela defesa e conservação do Aqueduto do Convento de Cristo. Fizeram e têm-no feito das mais diversas formas, cientes de que os 6 quilómetros deste extraordinário monumento são um legado, um desafio, mas também uma oportunidade.
Nesta comunidade surgiu assim a noção da degradação do aqueduto, provocada não apenas por atos danosos mas também por má gestão das diversas entidades que, de um modo direto ou indireto, podem e devem ser convocadas a tutelar este Monumento. Os constantes alertas que se foram manifestando pelas pessoas mais dedicadas a esta questão também foram disseminados pela Comunicação Social, local, nacional e internacional.
As dificuldades da tutela em organizar e implementar um plano de gestão integrada de todo o conjunto ressalta desde há muito. Esta problemática carece de ser tratada através de um pensamento crítico e ações com ele alinhadas. Ultrapassar dificuldades mantendo o objetivo de valorização da memória e dos testemunhos materiais e imateriais, é uma obrigação ética nacional, como todos sabemos.
Por isso, neste sentido, muito nos surpreendeu que o atual Instituto Público do Património Cultural, herdeiro das atribuições dos ex IPPC, IPPAR e DGPC, tenha manifestado publicamente no espaço televisivo, o desconhecimento desta situação referindo que até esse momento nenhum alerta lhe tinha chegado.
Em boa verdade, acreditamos que muitos dos técnicos desses serviços sempre tiveram a consciência de que salvar o Aqueduto significa integrá-lo, de direito, no conjunto monumental que representa a presença Templária e da Ordem de Cristo.
Esta presença, entendida na atualidade, também nos convoca à participação cívica, quer no levantamento dos problemas quer, enquanto Associação, na colaboração, que for entendida pertinente pela tutela, para a sua resolução. Os atuais princípios, renovados pelo trabalho da UNESCO, apontam este caminho de colaboração ativa entre as Organizações e Pessoas, a favor dos Territórios e da valorização dos seus recursos humanos, ambientais e culturais.
Portanto os recentes desenvolvimentos surgidos na Comunicação Social, na sequência de mais uma chamada de atenção para o problema do aqueduto, parecem, finalmente, pela primeira vez, ter gerado sinergias. Aguardaremos com expetativa o levantamento do seu estado de conservação, ainda que, por agora, apenas no troço dos Pegões.
Ainda que com décadas de atraso, registamos este “tempo novo” com enorme ânimo e esperança. Acolhemos, também com agrado, a inibição da passagem pedestre ao longo deste troço, algo que não deixámos de alertar por escrito há mais de uma década.
Consideramos que pode vir a ser este, um ponto crítico de sucesso, desde logo pela sua premência e por poder contrariar a delapidação deste Património, causada pelo abandono e vandalismo.
Importa ainda referir que, apesar desta degradação com mais de 5 décadas, o aqueduto continua a resistir e fazer parte da iconografia turística e patrimonial de Tomar e Portugal, ainda que focado no Vale dos Pegões, onde a monumentalidade deslumbra os olhares menos avisados. Mas ele é muito mais do que isto! Ele faz parte de um «todo» com quatro peculiares nascentes e mais de seis mil metros de extensão. Por isso impõe-se que mereça a atenção tanto das entidades públicas e de direito privado, como de todos aqueles que visitam a Região e a cidade de Tomar, na sua unidade cultural, na diversidade de recursos que a caracterizam como destino turístico muito singular, no contexto global.
O Grupo de Amigos do Aqueduto do Convento de Cristo, consciente das suas más condições de conservação, bem como da degradação da paisagem envolvente, continuará a trabalhar, denunciando, divulgando e atuando na medida dos meios ao seu alcance e da missão a que se impôs e mantém, na defesa dos valores patrimoniais e da cultura que os revela.
Tomar, Janeiro de 2026


1 comentário
os “Amigos do Aqueduto” merecem franco e forte aplauso.
Têm trabalhado com tranquilidade na conservação que conseguem com os meios que dispõem, principalmente a vontade.
E agora apresentam um conjunto de sugestões de orientações e ações, que só não serão devidamente apreciadas, se não houver um minimo de atenção, das autarquias às autoridades centrais.