
“Tomar é o lugar mais bonito que vi em Portugal”, escrevia no início do séc. XIX William Graham, cidadão irlandês que tinha entrado em Portugal, por Lisboa, em 17 de novembro de 1812, em plena Guerra Peninsular.
No livro que publicou em 1820, “Traveis through Portugal and Spain, during the Peninsular War”, William Graham relata a sua passagem por Tomar fazendo referência à limpeza da cidade, às construções, à fábrica de lanifícios (fiação), ao Convento de Cristo e a outros monumentos, bem como àquilo que os franceses não destruíram à sua passagem.
O texto foi transcrito por Fernando Freire, no seu blogue https://atalaia-barquinha.blogspot.com/
““Dia 15 de Dezembro de 1812 – Seguimos para Tomar, a 12 milhas de distância, subindo e descendo montes quase todo o caminho. A estrada era muito má, de tal maneira que a artilharia não podia subir aos sítios altos.
Como as mulas e os burros são, geralmente, os meios de transporte neste País, as estradas, como se podia esperar, são miseráveis.
A paisagem estava coberta de arvoredo, especialmente abetos, e a estrada era tão intrincada que obrigava a servirmo-nos de guias.
À medida que nos aproximávamos de Tomar, observámos que se tratava de um lugar delicioso, agradavelmente situado numa planície, no sopé de um monte. Não é muito grande, mas as ruas são largas e limpas e as casas bem construídas e conservadas, muitas delas com varandas douradas, como em Lisboa. Existe aqui uma fábrica de tecidos, meias, etc., que, felizmente para os proprietários, os franceses nunca chegaram a danificar, tendo arrecadado uma contribuição a seu favor que chegou à quantia de cinquenta mil coroas novas (dois xelins e seis dinheiros). Esta fábrica está do lado de uma ponte muito antiga que muitos consideram ter sido construída por Aníbal. Existe aqui um excelente mercado; todas as casas são feitas de pedra e com telhados de telha, o que é o modo habitual de construir casas em Portugal. É vulgar usarem-se tijolos na feitura de arcos. Cobrem normalmente a parte exterior das suas casas com cal, mas, em geral, os portais das portas e janelas são de pedra. Nenhuma das ruas é pavimentada, o que toma o andar desagradável.
No cimo do monte, sobre a cidade, existe um convento, notavelmente belo, de prodigiosas dimensões; existe uma única estrada até ele, que serpenteia em torno das rochas. Aquartelámos os nossos homens neste convento e foi-nos garantido pela população local que os Franceses tinham alojado nele 60.000 homens de infantaria, 80 canhões e 9.000 homens de cavalaria, tudo acomodado de uma só vez, incluindo cavalos e bagagem. Entra-se pelo único portão que tem, situado na extremidade Leste. Quando se está no pátio, à volta do qual se encontram os armazéns, os estábulos, etc., podem subir-se escadas em cada um dos quatro cantos do pátio. Devia, contudo, ter referido que à volta do primeiro pátio se forma um claustro, que, nos dias chuvosos, oferece protecção contra a chuva. Ao subir-se as escadas, nos cantos, chega-se a outro pátio, também com a forma de claustro e com elegantes pilares, com laranjeiras e flores no centro, como um pequeno jardim. À volta destes jardins estão os apartamentos ocupados pelos monges, que foram concedidos aos soldados, não apenas neste claustro mas em cerca de outros cinquenta. Em cada andar existe um destes jardins formado pelos quatro cantos.
No topo do edifício existe uma capela, e o apartamento do abade, que ocupa um desses claustros. Todos os monges que não tinham abandonado o convento tinham os seus quartos no topo. Fomos obrigados a colocar uma sentinela numa das passagens, a pedido do abade, a fim de evitar intrusões. Um dos monges conduziu-me por todo o lado. A capela está lindamente pintada, embora os franceses tenham levado os seus melhores quadros. A capela foi construída com uma forma octogonal, tendo em cada face do octógono uma capela pequenina dedicada a um santo. Estava muito bem atapetada e muito confortável. Também vi vários dos apartamentos, nos quais existem portas secretas para fazer passar alguma coisa para dentro ou fora de um quarto sem que a pessoa veja ou seja vista. A capela era apenas para uso dos monges, mas a capela comum, que servia a gente da aldeia, foi convertida num estábulo pelos franceses, exibindo a enorme capacidade da população de lhe dar esse uso. Os apartamentos ocupados pelos monges estavam muito arrumados e limpos, mas o comprimento e a quantidade das galerias surpreendeu-me para lá do imaginável.
Os franceses tinham levado tudo o que valia a pena; mas o que sobrava em muitos lugares podia bem tentar um epicurista a tomar-se monge, a gozar os luxos que ali tinham existido, e certamente ainda existiriam, embora escondidos. Os portugueses tinham, nesta altura, perdido muita coisa, pela vaidade de mostrarem aos franceses as riquezas do seu País. Frequentemente tinham sido roubados dessa riqueza; e aqui poderia eu perguntar, porque é que haveriam de viver tantos à custa da riqueza da terra, com tanta indolência? Alguns dos claustros estendiam-se pelo comprimento de trezentos paces (0,762m) e muitos por duzentos. Havia tantas curvas neste labirinto que, se eu não tivesse sido ajudado por um guia, ter-me-ia perdido.
Tomar é o lugar mais bonito que vi em Portugal.”
Não é correcto falarem de Tomar há 200 anos, 1820, e depois porem uma foto sem legenda ou indicação da data quando não havia fotografia ainda nessa data. As primeiras fotos, de Niépce, são de 1826-1827.