Festa de Ceras: algumas inovações, o mesmo espírito
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Cada vez se torna mais difícil fazer a festa anual da aldeia, quando as mesmas aldeias estão cada vez com gente mais idosa, descapitalizadas de jovens e se esbarra em alguma burocracia que vai vivendo à custa do esforço colectivo de um povo (leia-se SPA e agora Pass Music). Por isso haver festa na aldeia, ou em algumas aldeias começa a ser quase um “milagre”. De verdade é preciso ser mesmo bairrista para chegar de uma viagem de mais de 14H00 de carro de França para umas merecidas férias e enfiar-se numa cozinha, para horas sem fim cozinhar, servir à mesa ou ao balcão; ou estar de férias e abdicar de uns dias para se dedicar à festa. As festas da aldeia sem dedicação e muitas mãos e muita mão de obra gratuita não se fazem e acabam. E disso já há exemplos no concelho.
A par disso o risco das despesas e a falta do suporte que as mantem – a dádiva monetária das pessoas, especialmente dos mais jovens que não sabem o que é dar “esmola para a festa”.
Neste primeiro fim de semana do mês de Agosto e só por três dias, que são suficientes a aldeia de Ceras, teve mais uma vez o “milagre” de ganhar vida e confraternização!
Uma equipa dedicada, que ano sim ano sim, praticamente se dedica à festa, conseguiu o “milagre” já que vai sendo um milagre de colocar a festa em Honra da Padroeira – Nª Srª da Ajuda de pé.
O povo do lugar e amigos da terra e dos lugares que compunha a freguesia, esse continuam e bem a alimentar a “chama” com as duas dávidas e os amigos do lugar este ano foram muitos e permitiram que a festa tivesse algumas inovações que são sempre bem vindas. O desfile do Thomar Honoris e as danças medievais e apresentação de “bater espadas” em ambiente real, ao som de músicas da época, levou-nos no imaginário, a outros séculos, quando estas terras e esta estrada romana, hoje desaparecida, era sulcada por cavaleiros, vindos de Coimbra a caminho da conquista de Santarém. Remeteu-nos para o que a história regista de uma castelo desaparecido, da doação do território por D. Afonso Henriques a Gualdim Pais e ao ver partir, para Tomar de tropas para fazer uma cidade em território com mais abundância de água, espaço e condições. Por isso não é de estranhar que a sina do lugar tenha sido ao longo dos séculos de ver partir, de ver abalar e se, alguns gostam de regressar, nem que seja por dois os três dias, outros vá lá saber-se porquê, nunca tem tempo ou perderam a sua terra das coordenadas do rumo. Foram adoptados por outras terras.
Porém não são todos e, os que regressam querem que a festa continue!
Com uma equipa de trabalho coma festa montada e após o “mergulho”, na história, temos o peditório, casa a casa e este ano com tantos cavalos, cavaleiros e charretes e ao som dos Gaiteiros “ os Patos Bravos” e recolhe-se as dávidas, num misto de fé, emoção, algumas lágrimas e a garantia que a festa e as suas despesas fixas já estão pagas. É sempre assim, são as “esmolas” que pagam a festa.
Depois a missa e a procissão, a Banda Filarmónica Manoel de Matos Paialvo que já faz parte há uns anos da filarmónica residente, alternando por vezes com outras filarmónicas, os tabuleiros cedidos pela junta de Casais/Alviobeira e transportados pelas mesmas cabeças e trajes, que desfilaram perante milhares de pessoas em Tomar; os santos da capela, a padroeira Nª Srª da Ajuda, o cumprir promessas de ir na procissão por fé descalço e atrás da filarmónica o povo, acompanhando numa estrada nacional 110, tão movimentada que mesmo com a presença no ordenamento do tráfego da GNR se torna difícil, mas faz-se.
Este ano ficou marcada a procissão, por o seu encurtamento na extensão e o que foi e é a Ponte de Ceras, já não viu passar a procissão que inverteu a sua marcha, de regresso à capela, ao plátano da Casa da Eira.
Era demasiado extensa, mas sempre foi assim. As casas desabitadas e a perseverança do padre Sérgio, que antes já o padre Mário referia “ a procissão é muito cumprida” ajudou a tal e esta Comissão consultou o povo que acordou.
Mesmo mais pequena é preciso é que haja procissão, que haja festa que haja música, nem que os conjuntos sejam de custos mais económicos, mas com bom nível musical. A terra e o palco não comporta grandes bandas ( não temos espaço nem espectadores); a festa é da família, é da aldeia, é no calão do povo uma descamisada com muito nível e, o conjunto Império e Grupo Brisas e a organizas Paula Ribeiro recomendam-se assim com os Grupo da freguesia de cantares- Pedra e Cal. Só faltou o Rancho da terra o de Alviobeira a marcar presença, o que deve ser sempre um ponto assente, pois faz parte da “família”.
Todos ajudam na harmonia musical e o que é preciso é que – comos archotes que Thomar Honoris bem acessos, em noite ventosa, entraram em palco a chama do quase dever de fazer a nossa festa, não se apague e quem em 2020 haja alguém que faça a festa, pequena, como deve ser, mas muito grande para tantos. E a ornamentação do espaço, que foi visto por milhares de pessoas e aproveitado da Rua de S. João de Tomar, deu um beleza ao recinto e deu para ver ao pormenor, a trabalheira que as gentes de Tomar tiveram ao ornamentar as suas ruas.
PS- Este ano de 2019 fica marcado pela partida do grande filho da terra, e tão amigo da festa de Ceras e das nossas tradições, aqui nascido e criado, que trilhou os caminhos da emigração e regressou há uns anos e se dedicou ao serviço de táxi e que tantos amigos granjeou na sua actividade profissional e dedicação na disponibilidade – Manuel Júlio Vicente. Na mesma capela, de onde saiu a nossa procissão, na ante véspera do início da festa se fez o velório, toda noite, por desejo expresso de sua esposa e filhas, na sua partida tão súbita. E como a nossa memória é curta por vezes, lembremos que, as grandes obras de recuperação desta capela, totalmente suportadas pelo povo – nesta família, e na sua família emigrada na Venezuela, tiveram o primeiro “grande arranque “ em termos do primeiro apoio grande financeiro e que levou depois, a se continuar. 2019 fica marcado também, ao fim demais de uma década – a dar-se por terminadas, as obras da Capela de Ceras, para que a capela, ao contrário do castelo que a história regista, (mas que não conhecemos) seja passada desde 1755, de gerações em gerações. À família Vicente, numa hora tão triste o nosso Manuel Júlio será sempre recordado.
António Freitas