Opinião

Factos assustadores

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É sabido que, ao longo dos séculos, a igreja católica foi celebrando concílios, sempre que sentiu dificuldades de adaptação. De todos eles, dois tornaram-se bem conhecidos, um em que se discutiu o sexo dos anjos, (Constantinopla, hoje istambul) outro em que se debateu se os índios americanos tinham ou não alma (Valladolid).

Bons cristãos, mesmo se nem sempre praticantes, os eleitos tomarenses, decerto influenciados pela essa conhecida prática religiosa, resolveram convocar também eles uma espécie de concílio concelhio. Tema do conciliábulo: “O futuro da educação no concelho”. Nem mais nem menos.

Estava-se mesmo a ver que, com semelhante cardápio, muito dificilmente se discutiria o fundamental, quanto mais agora o essencial. E foi o que sucedeu. Banalidade atrás de banalidade, até houve dados interessantes, se bem trabalhados, o que não aconteceu. Salvou-se em parte a senhora presidente, que apresentou cifras, para logo depois se afogar na habitual demagogia barata do costume, bem como aquele antigo inspetor da Judiciária, agora presidente de junta, ao insurgir-se contra mais uma sessão de liturgia municipal, exclusivamente para entreter o pagode.

E no entanto, houve números oficiais deveras assustadores, apesentados por Anabela Freitas. Eis alguns: Nos últimos 12 anos, os estabelecimentos de ensino citadinos perderam alunos de forma preocupante. Menos 28 alunos por ano, no pré-escolar,  menos 54 alunos/ano no 1º ciclo, menos 24 alunos/ano no 2º ciclo, menos 34 alunos/ano no 3º ciclo e menos 9 alunos/ano, no secundário

De forma mais detalhada, a EB 2/3 Sta Iria perdeu durante o período 2007/2019 36 alunos/ano, a EB 2/3 Gualdim Pais perdeu 19 alunos/ano, enquanto a EB 2/3 Nun’Álvares conseguiu saldo positivo, com mais 3 alunos/ano, tal como a ES Santa Maria, sede de agrupamento, com mais 2 alunos/ano. Em contrapartida, a ES Jácome Ratton, também sede de agrupamento, perdeu uma média de 10 alunos/ano.

Temos assim que, mesmo durante a catástrofe populacional, as famílias da autoproclamada boa sociedade tomarense vão colocando os seus rebentos nos estabelecimento onde não haja comunistas (que horror!). Só assim se explica que, num contexto de declínio generalizado, apenas o agrupamento Nuno de Santa Maria tenha conseguido manter e até aumentar o número de alunos inscritos. Por conseguinte, caso a autarquia tivesse determinado que os alunos da D. Henrique iriam para a Nun’Álvares, provavelmente estaria tudo bem. Agora para a Gualdim Pais, ou a Santa Iria, nem pensar. Um dia destes ainda aparecem aqueles malcriados da Santo António, e depois?

Mas disto ninguém falou, no convocado concílio municipal. Ficaram-se pelas obras de reparação e adaptação necessárias, questão menos polémica. E prevaleceu o silêncio sobre os centros escolares das freguesias periféricas. Há situações que é melhor manter no segredo dos iniciados…

Então e o futuro da educação no concelho?, perguntará o leitor agastado. Ficará para melhor oportunidade, que nunca mais vai aparecer. Como bem disse a presidente Anabela Freitas, não se pode falar de educação sem abordar a questão da demografia. Sucede que, em Tomar e um pouco por todo o país, ninguém quer abordar com empenho bagagem a evolução demográfica. O que se compreende. Implica planos adequados, investimentos, dívidas, impostos, burocracia, atividades produtoras de valor acrescentado, emprego fora do funcionalismo, excesso de funcionários inúteis, projetos inovadores, coragem, ideias.

Demasiada areia para a velha e fraca camioneta tomarense. É muito mais fácil ir entretendo a malta com festas, subsídios, passeios, comezainas, obras ornamentais e conversa da treta. Afinal de contas, um voto comprado vale o mesmo que um voto esclarecido.

O pior é o resto.

                                                 Samuel Martins Costa

 

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1 comentário

  1. Curioso. Este texto, que não sendo nenhuma obra prima, é mesmo assim de leitura agradável, não caiu nas graças dos leitores. Apenas uma partilha, até agora, quando um outro sobre a mesma escola conseguiu 49 partilhas. Coisas típicas tomarenses.
    O que deve magoar os visados é a crueza da argumentação. Coitados! Vivem numa espécie de redoma de vidro opaco, que lhes oculta a realidade. De modo que, quando alguém ousa partir o vidro da redoma, ninguém gosta. Sobretudo neste caso em que se fica a saber que, apesar do excelente desempenho dos eleitos locais do PSD e do PS, bem como da magnífica actuação da srª Dª Anabela, do seu séquito e dos opositores sentados, afinal nos últimos 12 anos, (segundo números oficiais, fornecidos pela própria presidente e publicados no insuspeito Cidade de Tomar desta semana, na página 12), a EB 2/3 Santa Iria já perdeu alunos equivalentes a 17 turmas, e a EB 2/3 Gualdim Pais equivalentes a 9 turmas, num total de 26 turmas, sem que conste que tenha sido reduzido o total de profs efetivos naqueles estabelecimentos.
    Problemas demográficos dirá a lider dos PS nabantino, logo aplaudida pelos seus acólitos. Pois seja. E qual ou quais as causas desses problemas, sobretudo tomarenses? Simples maldição dos deuses? Ou evidentes erros políticos?

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