Há uma frase que se repete sempre que se fala da relação entre os jovens e a política: os jovens não querem saber de política.
É uma explicação muito simples para um problema tão complexo.
É verdade que muitos jovens estão, sim, muito afastados dos partidos, dos debates e da política tradicional. Mas será que isso significa que os jovens não têm interesse na política? Ou é simplesmente a política que não consegue falar a língua dos jovens?
Vivemos numa época em que conseguimos saber, em poucos segundos, o que se passa do outro lado do mundo apenas através de um telemóvel. Estamos habituados a vídeos curtos e a informação apresentada de forma simples e rápida. Depois, abrimos um programa eleitoral e encontramos dezenas de páginas, uma linguagem mais formal e propostas que, muitas vezes, obrigam a um esforço considerável apenas para serem compreendidas.
A política tornou-se, para muitos jovens, uma coisa muito complexa, com discursos demasiado longos, palavras demasiado complicadas e debates que parecem destinados a quem já está dentro do sistema.
Pelo contrário. Talvez uma das maiores dificuldades da comunicação política seja precisamente conseguir explicar assuntos complexos sem os transformar em assuntos incompreensíveis.
Um jovem que quer perceber o que um partido defende deveria conseguir descobrir as suas principais propostas sem ter de ler dezenas de páginas. Os programas eleitorais completos continuarão a ser necessários. Mas tem de existir uma versão verdadeiramente resumida, com as principais medidas explicadas de forma clara.
Não se trata de transformar a política num conjunto de frases feitas. Trata-se de criar uma porta de entrada.
E as redes sociais tornaram esta questão ainda mais evidente.
Podemos concordar ou discordar das ideias da Iniciativa Liberal ou do Chega. Podemos criticar as suas propostas, a sua estratégia ou a forma como comunicam. Mas há uma coisa que estes partidos perceberam muito bem: uma das coisas mais importantes da política é a comunicação.
Basta olhar para a comunicação política nas redes sociais. Medidas apresentadas em poucos pontos, vídeos curtos e mensagens que vão diretas à sua ideia principal. A comunicação de figuras como Mariana Leitão mostra também como é possível falar de política sem transformar cada publicação num comunicado de imprensa.
Não estou a dizer que uma boa publicação no Instagram torna uma proposta melhor. Nem que os partidos que comunicam melhor são necessariamente os que têm melhores ideias.
Estou a dizer outra coisa: se queremos que os jovens prestem atenção à política, temos de aprender a comunicar no espaço onde eles estão.
Os resultados dessa mudança na comunicação não devem ser ignorados.
Se existem partidos que conseguem mobilizar jovens e transformar temas políticos em conteúdos que circulam diariamente nas redes sociais, então talvez a ideia de que esta geração é simplesmente desinteressada não explique tudo.
Os jovens podem estar afastados de determinadas formas de fazer política e, ao mesmo tempo, profundamente interessados em discutir o futuro do país.
A prova está também nos próprios jovens que se envolvem. Existem jovens que criam projetos, discutem política nas redes sociais, participam em movimentos, entram em juventudes partidárias ou simplesmente passam horas a discutir aquilo que acontece no país.
O problema é que, muitas vezes, confundimos falta de interesse com falta de identificação.
Um jovem pode interessar-se por habitação, salários, educação, ambiente ou pelo futuro da Europa sem necessariamente se identificar com a forma tradicional de fazer política. Pode querer mudar o país e, ainda assim, não querer assistir a duas horas de um debate parlamentar.
E aqui também é importante fazer uma autocrítica.
A responsabilidade não é apenas dos políticos. Os jovens também têm responsabilidades. Não podemos exigir que toda a política caiba num vídeo de trinta segundos. A democracia exige tempo, conhecimento e capacidade para ouvir opiniões diferentes das nossas.
Simplificar a comunicação não pode significar simplificar o pensamento.
Mas também não podemos exigir aos jovens que se aproximem de uma política que, demasiadas vezes, parece fazer pouco esforço para se aproximar deles.
Os partidos precisam de perceber que falar a língua dos jovens não significa falar de forma infantil. Significa comunicar de forma clara. Significa perceber que um discurso de cinco minutos pode ter mais impacto do que um discurso de vinte, se conseguir transmitir uma ideia que permaneça na cabeça de quem o ouviu.
A política não precisa de deixar de ser complexa. Precisa é de deixar de ser desnecessariamente complicada.
Talvez, por isso, esteja na altura de deixarmos de perguntar apenas porque é que os jovens estão afastados da política.
Talvez devêssemos começar por perguntar porque é que a política está tão afastada dos jovens.
Porque os jovens não deixaram de querer mudar o mundo.
Ricardo Lameiras
Estudante, de 17 anos

