O escritor Manuel Fernandes Vicente apresenta no próximo dia 1 de dezembro, segunda feira, feriado nacional, pelas 16h30 no Cineteatro São João, no Entroncamento, o seu novo livro “Raia, Raianos, Nobres e Malteses”.
A obra integra um conjunto de crónicas e reportagens de viagens, e análises e reflexões críticas cujo foco central é a realidade singular vivida pelos povos raianos na fronteira de Portugal com Espanha.
O autor, ele próprio um raiano natural de Castelo Branco e cuja família é da aldeia fronteiriça de Malpica do Tejo, junto ao troço internacional do grande rio ibérico, admite que esta sua origem teve uma forte influência na decisão de avançar com a obra que procura espelhar o mundo pobre e calcado que sempre foi a Raia.
E, desde o Minho e da Serra do Gerês, às Terras de Barroso e a Terras de Miranda, de Rio de Onor a Sabugal e ao longo das Beiras, de Castelo Branco e do Alentejo, até Marvão, Barrancos e mais além pelo Guadiana fora, é deste mundo complexo, até com as suas contradições, e fatalmente deprimido e ostracizado, que ergueu castelos e deu o corpo às balas e aos canhões para garantir a integridade do território nacional, que o livro dá conta ao longo das suas mais de 500 páginas.
Apesar de viver no Entroncamento há muitos anos, esta permanência na cidade ferroviária não o fez esquecer as suas raízes e a condição de pobreza que afetava a realidade da sua aldeia, que era também apenas um microcosmos, uma miniatura, de uma realidade comum a muitas centenas de povoações que ao longo dos mais de 1200 quilómetros da Raia (que, contudo, ainda permanece indefinida ao longo de uma certa extensão na zona entre Elvas e Olivença) separam Portugal e Espanha.
É claro que aqui, na Raia, como sempre que há proximidade entre seres humanos que têm origens diferentes, houve as mais diferentes e contrastantes formas de convivências, desde algumas querelas e animosidades, a outras bem mais solidárias e de grande cumplicidade humana, até heroísmos silenciosos, por vezes até ocultos.
É verdade que houve batalhas, refregas e perseguições, mas neste limbo entre as duas nações ibéricas também houve os mais puros exemplos de nobreza de carácter, com histórias em que uns de um lado da fronteira correram sérios riscos para que os outros, do lado de lá, não fossem sumariamente encostados a uma parede e a tornarem-se em alvos fáceis de soldadescas sanguinárias.
“Há muitas coisas que só podem ⎼ ou puderam ⎼ ter tido lugar ao longo da Raia. E de Melgaço a Quintanilha ou de Quadrazais a Marvão e a Barrancos não houve território onde não se confessasse e praticasse o ubíquo negócio do contrabando, do levar e trazer, do ficar ou fugir, do vencer ou do morrer, que as leis nacionais sempre poderão ter declarado como proibido, mas os raianos nunca consideraram como ilegítimo”, escreve na introdução deste seu novo e nono livro Manuel Fernandes Vicente, que esclarece naturalmente este ponto de vista: “A razão era a do mais simples bom senso, porque percorrer dezenas de quilómetros de noite por caminhos que mal os havia com um saco com 40 quilos de mercadoria às costas (por vezes o “fardo” podia chegar aos 60 quilos) para ser útil a alguém, e não deixar que os seus morressem à fome naquela miséria onde mais nada havia, não poderia ser crime em nenhum lado decente do mundo”.
Na mesa da apresentação de “Raia, Raianos, Nobres e Malteses”, vão estar o Presidente da Câmara Municipal do Entroncamento, Nelson Cunha, o historiador António Matias Coelho, o tenente general António Mascarenhas, Helena Rodeiro, leitora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Mário Rui Rodrigues (antigo presidente do Grupo de Amigos de Olivença), o publicista oliventino José António González Carrillo e ainda o editor da obra, António Vieira da Silva, para além do autor, Manuel Fernandes Vicente.




