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Tragédia em Moçambique: mais um depoimento desta vez de um ferreirense

O ferreirense Rui Antunes é consultor na área de informática e trabalha em Maputo, capital de Moçambique, zona que não foi afetada pelo ciclone Idai.

Irmão do Vereador Hélio Antunes, da Câmara de Ferreira do Zêzere, Rui Antunes tem estado por estes dias na região de Tete, que fica a cerca de 500 quilómetros da zona afetada.

Ao “Tomar na Rede” respondeu a algumas perguntas por escrito:

 

– Como acompanha a situação dramática na Beira? 

A situação tem sido acompanhada com muita preocupação. Para quem conhece as cidades do interior (e mesmo Maputo), existe uma grande área de subúrbios de habitações com poucas condições e de construção muito precária. É fácil perceber que a passagem de um ciclone desta magnitude, vai simplesmente arrasar todas aquelas construções. Para piorar, a cidade da Beira, onde aconteceu o landfall (a entrada em terra vindo do mar) do ciclone, situa-se numa zona muito baixa em relação ao nível do mar, sendo frequentes as inundações com gravidade, sobretudo com a conjugação de maré cheia e subida de caudais, o que é normal nesta altura do ano por ser época de chuvas, todas estas zonas periféricas são rapidamente inundadas, colocando as pessoas que eventualmente sobreviveram ao ciclone, em risco de não sobreviver às inundações, quer por ficarem dias em árvores ou telhados e as ajudas demorarem quer pelo risco de se aventurarem nas águas com todos os perigos que isso representa. Por isso, as primeiras horas são cruciais para se salvar o maior número de pessoas possível e daí todos os apelos à ajuda que têm sido massivamente feitos.

 

– No terreno, há uma ideia da dimensão da tragédia?

O ciclone atingiu a Beira de quinta para sexta feira da semana passada, tendo progredido para o interior atravessando (cortando) literalmente o país a meio do litoral para interior, atingindo ainda dois países do interland, Zimbabwe e Malawi. Esta situação provocou de imediato uma quebra geral de comunicações quer de telefone, internet, telemóveis, entre a zona norte e zona sul. Sabia-se pelas previsões e alguns alertas que haviam sido divulgados, que era esperado um ciclone, mas as medidas preventivas praticamente não foram tomadas e as pessoas seguiram as suas vidas normais sem grandes preocupações. Com a quebra de comunicações tudo ficou mais difícil. Eu pessoalmente e a maior parte das pessoas que estava fora da zona atingida, não soube nada da Beira nem do que se tinha passado naquela região antes de segunda feira. Quando, por fim, algumas imagens começaram a ser divulgadas e onde se começou a ver a real dimensão da tragédia. Algumas operadoras conseguiram restabelecer parcialmente os serviços e com isso começaram a ser divulgadas cada vez mais informações. Desde aí tem havido um crescente de mobilizações de ajuda, sobretudo a partir de Maputo, para apoio às populações, estando neste momento a decorrer uma iniciativa grande, que está a acontecer durante o dia de hoje no Porto de Maputo e em vários pontos espalhados pela cidade, para recolha de donativos, tendo sido já carregados  10 contentores marítimos e onde se espera ainda carregar mais para seguir via marítima para o porto da Beira. Outras iniciativas internacionais têm surgido, destaco por exemplo o apoio logo no terreno nas primeiras horas da tragédia de uma equipa de busca e salvamento sul africana, IPSS Medical Rescue, composta de 15 elementos, que em antecipação e olhando as previsões da meteorologia dos dias anteriores, rumou para a cidade da Beira onde já era esperada a entrada deste ciclone, tendo de imediato ido para o terreno e começado o trabalho de busca e salvamento. A força aérea sul africana tem também estado no terreno muito ativa, com várias equipas helitransportadas. A Índia (existe uma comunidade indiana muito grande em Moçambique) fez também seguir dois barcos com ajuda que já estão no local. A equipa de rangers do parque nacional da Gorongosa, está também no terreno com barcos e os meios próprios para apoio na busca e salvamento e muitas outras iniciativas estão a acontecer. Portugal está também já a fazer seguir equipas para o terreno e destaco aqui a iniciativa do Comandante Vítor Leal, um português que está a trabalhar aqui em Moçambique na área de equipamentos de proteção e segurança, com larga experiência em Portugal nos bombeiros e em missões internacionais de ajuda, que desde logo, por iniciativa própria, tomou a decisão de viajar para a Beira para ajudar no terreno,  tendo lançado vários apelos de ajuda às autoridades Portuguesas, para lhe serem disponibilizados meios para que ele pudesse atuar no local, o que por fim, apesar de não ter sido com a agilidade que se pedia, parece já estar a acontecer.

 

– Imagino que seja difícil fazer chegar a ajuda às zonas afetadas…

Exato, um dos problemas que dificultam todo os processo de ajuda é a quebra de infraestruturas rodoviárias, sendo impossível chegar por via terrestre à cidade da Beira por causa de várias pontes e estradas literalmente levadas pela força do vento e da água. É algo que irá demorar tempo a repor e que vai dificultar não só o processo de reconstrução como também a escassez de bens nas cidades e países do interior, uma vez que o Porto da Beira é usado para carga geral e combustíveis que abastecem todas as zonas do interior, incluindo Zimbabwe, Zâmbia e Malawi.

 

– Como é que as populações locais reagiram?

Numa primeira fase, ficaram estupefactas com o que aconteceu, ninguém estava à espera de uma destruição desta magnitude. É mais ou menos normal acontecerem tempestades tropicais todos os anos e penso que a ideia das pessoas é que seria mais uma, mas era efetivamente algo de maiores dimensões e que apanhou a população de surpresa apesar dos alertas. Mas após se começar a saber o que tinha acontecido, começaram a surgir iniciativas e as pessoas não baixaram os braços e começaram a mobilizar-se e existe hoje sobretudo em Maputo, uma grande onda de solidariedade a querer ajudar. Nestes dias tenho estado na região de Tete, que fica a cerca de 500 km da zona afetada e curiosamente há muito pouca mobilização. Já tentei procurar saber se existe aqui algum tipo de organização para uma ajuda à Beira mas não se tem visto essa mobilização como se está a assistir em Maputo. Acredito que isso também se deve ao facto de Tete ter sido afetada há duas semanas atrás por uma subida repentina das águas do rio Rovubué e Zambeze, o que provocou também várias inundações, vias de comunicação e casas destruídas e infelizmente algumas mortes, estando ainda a “sarar” dessas feridas recentes.

 

– Há relatos impressionantes. Quer destacar algum?

Alguns relatos do que se passou são surpreendentes. Talvez o que mais me tenha chocado foi o relato do que aconteceu no hospital central da Beira, em que o teto simplesmente foi arrancado, todas as crianças recém nascidas da ala pediátrica faleceram e dezenas de outras pessoas internadas perderam a  vida. Outros relatos e aqueles que me tocam mais são de pessoas desesperadas a tentar saber de familiares dos quais não se consegue notícias por falta das comunicações e por estarem em zonas inundadas. Só a titulo de exemplo, uma colega que trabalha comigo em Tete, quando lhe perguntei se tinha visto as notícias da Beira, disse-me que sim e que a mãe dela mora lá e desde quinta feira que não consegue saber nada dela nem contactar. Alguém conhecido dela com quem terá conseguido falar, foi à zona onde ela morava e a casa e já não existia, não tendo ainda conseguido saber nada do paradeiro da senhora. Isto é naturalmente um drama não só para as pessoas que moravam nas áreas afetadas mas também para todos os familiares que estão fora, desesperados sem informação e sem notícias.

 

– Têm conhecimento de portugueses que tenham sido afetados? Alguém da nossa região?

As notícias falam que há cerca de 30 portugueses desaparecidos naquela região. Não sei mais do que isto. De todos os Portugueses que conheço na Beira, já consegui saber notícias e estão bem. Naturalmente com muitos prejuízos mas sobreviveram e estão bem. Alguns que contactei são da zona de Leiria.

 

– Que tipo de ajuda é prioritária nesta altura?

Há milhares de famílias que perderam literalmente tudo. Numa primeira fase a ajuda básica é a retirada das zonas de risco e fornecer alimentação, algo que já está em curso. Depois há que refazer as vidas dessas pessoas o mais rápido possível, para que possam voltar à normalidade. Desde a ajuda em vestuário que será muito necessária, produtos de higiene pessoal, produtos para purificação de água, material escolar para as crianças e tudo aquilo que for não perecível e com validades longas será bem recebido. As ajudas podem ser feitas em Portugal através das estações dos correios que se associaram aos correios de Moçambique e asseguram a embalagem e transporte gratuitos, basta entregar lá, ou através da Cruz Vermelha, que está em coordenação com a embaixada de Moçambique em Portugal e que estão também a receber donativos, há ainda outras iniciativas que tenho conhecimento como por exemplo a Caritas, etc..

 

– Um comentário final… 

Apenas aquilo que já algumas pessoas manifestaram e que é também a minha opinião, este povo já vive em condições tão precárias, numa luta diária pela sobrevivência, que não merecia que lhe acontecesse mais isto!

Escrita por Redação

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