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Mão Amiga: a solidariedade está a passar por aqui

Nem sempre a solidariedade passa pelas instituições e a recente pandemia provou que, nos momentos difíceis, há cidadãos que se unem para ajudar quem precisa sem olhar a quem. Iniciativas como as caixas solidárias e o grupo Mão Amiga têm contribuído para minimizar as dificuldades de muitas famílias.

A vergonha de pedir e o receio da exposição pública fazem com que algumas pessoas prefiram pedir ajuda de forma anónima a estes grupos não formais.

O grupo Mão Amiga surgiu para apoiar pessoas que, por causa da pandemia covid-19, se viram subitamente em dificuldades. Conforme explica um dos elementos do grupo “é a mão amiga para ajudar pontualmente até se voltarem a organizar, encontrar emprego ou obter respostas de instituições sociais”. Outras situações podem ser tratadas como apelos de procura de emprego, troca de serviços, doação de roupa ou mobílias que ao invés de serem deitadas fora podem ser úteis para alguém que não tem ou não pode comprar de momento. A palavra chave no grupo Mão Amiga é cooperação.

Fazem questão de sublinhar que não se pretendem substituir a essas instituições até porque todos os elementos do grupo vivem do seu trabalho e também têm de fazer pela vida. “Aqui podemos dar o peixe, mas a ideia é que a pessoa aprenda a pescar. Todos temos que ser responsáveis pelas nossas vidas. Quem pede não se deve “viciar” nesse modo de vida. Quem dá, dá em desapego e de coração”, explica a mesma fonte.

“Mão Amiga” começou em abril com um primeiro pedido de ajuda que fez com que se criasse o grupo no Facebook. Uma mulher estava em risco de perder o seu carro porque ficou desempregada e sem possibilidades de pagar a prestação da viatura. Pediu uma moratória, mas veio recusada. A prestação era de 140 euros. No grupo lançou-se o apelo a pedir 1 euro a 140 pessoas e rapidamente se solucionou.

 

A vergonha de pedir e a gratidão ao receber

A recetividade a esta iniciativa solidária tem sido muito boa. Tanto de quem dá como de quem recebe. Não há interesses políticos, económicos e religiosos ou de qualquer outra espécie. O grupo é apenas de pessoas da sociedade civil que querem ajudar quem mais precisa. De realçar também a recetividade do Talho Fernando que abriu a oportunidade de quem quiser comprar vales para oferecer e da Pastelaria Willys, ambos na Alameda Um de Março, onde quem quiser pode deixar pão pago para quem mais precisa.

Neste momento, o grupo reúne cerca de 1100 pessoas, mas começou com 140 pessoas, depois os elementos foram convidando outros elementos. Ninguém é obrigado a dar. As famílias muitas vezes são sinalizadas por elementos do grupo, mas também há quem envie um pedido de ajuda porque já não sabe a quem recorrer. Também há a vergonha da exposição. Por isso aqui é tudo feito sem publicidade.

O grupo é aberto a toda a gente. Quem procura emprego, quem quer trocar de carro, quem quer vender artigos, quem precisa de roupas ou de um eletrodoméstico, etc… Não se dá dinheiro, e só houve apoio monetário em situações muito excecionais. Todos os casos são encaminhados para as ajudas institucionais. As famílias, por norma, só são ajudadas uma vez. Depois sabem que terão que encontrar outras respostas. A ideia é reacender a esperança num mundo melhor, tanto em quem recebe como em quem dá.

Quanto ao tipo de ajudas que pedem, são sobretudo bens alimentares, roupa, calçado. Artigos que as pessoas podem receber e assim já não têm que comprar e sobra para as outras contas. Todos nós temos artigos em casa que só lá estão a ganhar pó e que podem servir a outras pessoas. Uma migalha para uns pode ser um pão para outros.

Quem pede ajuda são famílias em dificuldades porque perderam o emprego, fruto da pandemia, trabalhadores por conta própria que fecharam o negócio, pessoas que não encontraram ainda respostas nas instituições, pessoas que se separaram e estão a começar tudo de novo mas nunca as situações de longo prazo já sinalizadas pelas instituições. Esses casos não são para o âmbito do grupo.

E há casos dramáticos em que as pessoas pura e simplesmente deixaram de ter comida na mesa. Se falta para comida, é normal que falte para tudo o resto.

A pandemia teve um impacto bastante profundo nas famílias. Quem não tivesse uma situação sólida ficou de facto em dificuldades e muitas vezes tem vergonha em pedir ajuda. É preciso tratar as situações com tato.

Houve o caso de um rapaz, de baixa médica, que não tinha gás em casa nem como comprar. Pediu ajuda e até não ter a botija de gás improvisou um braseiro para poder cozinhar a carne que lhe tinham oferecido. Enviou as fotos para o grupo orgulhoso da solução. No dia seguinte tinha a garrafa de gás. Mais uma vez, um grupo de pessoas deu um euro ou mais e conseguiu-se. Mas esta família sabe que tem que ir procurar outra solução.

A melhor parte é a reação das pessoas quando são ajudadas. Algumas choram de alegria, ficam aliviadas e sempre com enorme gratidão. Quem ajuda não o faz a espera de nada em troca, mas quem recebe faz sempre questão de agradecer.

Para já, o grupo Mão Amiga só vai funcionar até que faça sentido e apenas nesta fase da pandemia. A expectativa é que a situação melhore em termos sociais. Aliás, alguns elementos de famílias que o grupo ajudou já arranjaram trabalho.

Ajudar os outros é gratificante. Enche o coração. Fazer o bem sem olhar a quem. E sem esperar nada em troca.

Escrita por Redação

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