in

Novo parque da estação é (mais) uma montra da caótica gestão municipal

Uma análise de Margarida Magalhães

Convém recapitular, para perceber melhor. A dada altura, sem mais quê nem porquê, a Câmara resolveu que a Várzea Grande, o multi-secular campo da feira, o antigo rossio da vila, ia ser requalificado. Isso mesmo, requalificado. Para sacar uns dinheiros europeus, destinados à requalificação urbana.

Ante um projeto de origem local um bocado indigente, houve logo críticas e protestos, como é normal em democracia. Sobressaiu a necessidade imperiosa de um estacionamento subterrâneo.

Senhora do seu nariz, como sempre, Anabela Freitas foi categórica: Não ao parque subterrâneo, porque pode não haver dinheiro que chegue para o fazer. E pronto. Há dinheiro para ornamentar ruas e largos com artefactos inúteis. Pode não haver para o que faz mesmo falta. Estamos assim.

Com a sua conhecida tarimba política, o vice da senhora cedo percebeu que a coisa ia dar problemas. Assim, procurando antecipar-se, em 7 de Fevereiro noticiou que a autarquia estava a negociar o terreno nas traseiras de S. Francisco, para um parque de estacionamento com 400 lugares. Isso mesmo. 400 lugares. Contudo, acrescentou logo o autarca, o Ministério da defesa já cedeu o terreno, mas a Direcção-Geral do Tesouro quer que a autarquia o pague. E não se falou mais no assunto. Ficou a ideia dos 400 lugares.

Pressionada pelos acontecimentos, com os utentes do caminho de ferro que todos os dias vão trabalhar fora de Tomar, e têm de deixar os carros algures, para o regresso, a protestar fortemente, a presidente tirou mais um coelho da cartola. É uma das suas especialidades. Desta vez, um parque de estacionamento à ilharga da estação, gratuito e para sempre, com 380 lugares, anunciou a emissora oficial da autarquia. Leram bem: 380 lugares. Para compensar parcialmente os mais de 400 entretanto suprimidos na Várzea Grande.

Na mesma linha, a senhora reincidiu, pouco tempo depois. Em 5 de Março, disse na rádio que o “Futuro parque de estacionamento deverá estar funcional até ao final de Abril.”

O tempo passou, devagar, como é costume em Tomar. Em 27 de Abril, essa mesma rádio, que se tem vindo a revelar como porta-voz da câmara, em vez de noticiar a entrada em funcionamento do parque, como prometido, limitou-se a esclarecer (sem querer?) que, contas bem feitas, os 380 lugares serão afinal apenas 335, (menos 45), se entretanto a prática não vier a revelar que são ainda menos.

Pelo meio, ficaram os tomarenses (que ainda lêem/ouvem a informação local) a saber que o prometido estacionamento “gratuito e para sempre”, depende afinal de um contrato entre a Infraestruturas de Portugal, proprietária do terreno, e a Câmara, válido só por 15 anos.

E estávamos nisto, já bem depois da data anunciada para a abertura do parque, quando o vice Cristóvão largou mais uma bomba de duplo efeito:

1 – “O parque terá menos lugares, porque a proprietária do terreno pretende salvaguardar uma parte das estruturas existentes, com valor histórico.” (Supõe-se que seja o conjunto “Ponte rotativa para inversão de marcha e castelo de água”.)

2 – Uma parte do terreno, inicialmente destinado ao parque de estacionamento, “deverá ficar em reserva para a eventual implantação de uma grande superfície”.

Temos assim, numa frase, mais um exemplo da péssima gestão camarária, que não consegue acertar uma previsão, o esclarecimento mais preciso do acordo de cedência do terreno, e a confirmação da conhecida sentença “ninguém dá nada a ninguém”.

Tudo bem visto, a Infraestruturas de Portugal, fez com competência aquilo que lhe compete: Trocou a cedência temporária do terreno para o parque, por um alvará definitivo para a instalação de uma grande superfície, talvez a Mercadona. O que poderá significar a longo prazo um parque de estacionamento gratuito, mas cuja saída só será possível mediante a apresentação do talão de compras, sem o qual a cancela automática não abre. Estão a ver o truque? A culpa não será da autarquia, mas da grande superfície.

Mais tarde, uma vez confirmado o interesse da “grande superfície”, vão começar as habituais tranquibérnias, com o polvo camarário a complicar as coisas, alegando a necessidade de alterar o PDM e de fazer ou refazer planos de pormenor, tudo para entretanto ir vendendo facilidades por portas travessas.

Perante o costumeiro silêncio cúmplice dos tomarenses, ao que parece geneticamente pachorrentos em demasia, tudo isto dá vontade de perguntar: Mas que raio de terra é esta?

Margarida Magalhães

Comentários

Responder
  1. Cabe perguntar desde já, para não ficar depois desagradavelmente surpreendido: Descontando a parte do terreno para a preservação do património, e a outra parte para a referida grande superfície (se vier mesmo !!! pode ser só o habitual fogo de vista), o parque PÚBLICO vai ficar com quantos lugares?

  2. Respondendo a esta Sua questão
    O parque PÚBLICO vai ficar com quantos lugares?
    0 (zero) lugares, porque de Público não tem nada, apesar de este espaço ser pertença de uma Empresa Pública, não é sinónimo de ser um Parque Público.
    Depois da Câmara gastar n de dinheiro Público, possivelmente para fazer o jeito a alguém, a questão que se coloca é a seguinte, depois de terminar o Contrato de Arrendamento do dito espaço, tudo o que nele foi feito reverte a favor de quem e em que condições ?
    Isto é que era interessante saber, assim como quais as condições redigidas no dito Contrato.

    • Cabe ao administrador do blogue, funcionário da câmara em licença sem vencimento, conseguir uma cópia desse contrato. Deve dispor de bons contatos lá dentro.
      A não ser que, como recebe uma avença mensal de uma entidade controlada pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, cuja presidente é Anabela Freitas…

  3. Um dos grandes problemas do país, sobretudo autárquico e em regiões de eleitores nada exigentes como os tomarenses, predomina a filosofia do “sacar dinheiro para obras”. Como tais “gestores” não tem competência técnica nem visão estratégica, o planeamento é mau , feito para a duração do mandato e como, tirando o tribunal de contas, ninguém os controla, acontecem coisas destas: obras de fachada, inúteis e sem retorno económico. Com a Av. Nuno Álvares vai ser igual.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Loading…

0

Visitar o Convento de Cristo em meia hora? (c/ fotos e vídeo)

Albufeira de Castelo do Bode a 87 por cento