Opinião

Novo parque da estação é (mais) uma montra da caótica gestão municipal

Convém recapitular, para perceber melhor. A dada altura, sem mais quê nem porquê, a Câmara resolveu que a Várzea Grande, o multi-secular campo da feira, o antigo rossio da vila, ia ser requalificado. Isso mesmo, requalificado. Para sacar uns dinheiros europeus, destinados à requalificação urbana.

Ante um projeto de origem local um bocado indigente, houve logo críticas e protestos, como é normal em democracia. Sobressaiu a necessidade imperiosa de um estacionamento subterrâneo.

Senhora do seu nariz, como sempre, Anabela Freitas foi categórica: Não ao parque subterrâneo, porque pode não haver dinheiro que chegue para o fazer. E pronto. Há dinheiro para ornamentar ruas e largos com artefactos inúteis. Pode não haver para o que faz mesmo falta. Estamos assim.

Com a sua conhecida tarimba política, o vice da senhora cedo percebeu que a coisa ia dar problemas. Assim, procurando antecipar-se, em 7 de Fevereiro noticiou que a autarquia estava a negociar o terreno nas traseiras de S. Francisco, para um parque de estacionamento com 400 lugares. Isso mesmo. 400 lugares. Contudo, acrescentou logo o autarca, o Ministério da defesa já cedeu o terreno, mas a Direcção-Geral do Tesouro quer que a autarquia o pague. E não se falou mais no assunto. Ficou a ideia dos 400 lugares.

Pressionada pelos acontecimentos, com os utentes do caminho de ferro que todos os dias vão trabalhar fora de Tomar, e têm de deixar os carros algures, para o regresso, a protestar fortemente, a presidente tirou mais um coelho da cartola. É uma das suas especialidades. Desta vez, um parque de estacionamento à ilharga da estação, gratuito e para sempre, com 380 lugares, anunciou a emissora oficial da autarquia. Leram bem: 380 lugares. Para compensar parcialmente os mais de 400 entretanto suprimidos na Várzea Grande.

Na mesma linha, a senhora reincidiu, pouco tempo depois. Em 5 de Março, disse na rádio que o “Futuro parque de estacionamento deverá estar funcional até ao final de Abril.”

O tempo passou, devagar, como é costume em Tomar. Em 27 de Abril, essa mesma rádio, que se tem vindo a revelar como porta-voz da câmara, em vez de noticiar a entrada em funcionamento do parque, como prometido, limitou-se a esclarecer (sem querer?) que, contas bem feitas, os 380 lugares serão afinal apenas 335, (menos 45), se entretanto a prática não vier a revelar que são ainda menos.

Pelo meio, ficaram os tomarenses (que ainda lêem/ouvem a informação local) a saber que o prometido estacionamento “gratuito e para sempre”, depende afinal de um contrato entre a Infraestruturas de Portugal, proprietária do terreno, e a Câmara, válido só por 15 anos.

E estávamos nisto, já bem depois da data anunciada para a abertura do parque, quando o vice Cristóvão largou mais uma bomba de duplo efeito:

1 – “O parque terá menos lugares, porque a proprietária do terreno pretende salvaguardar uma parte das estruturas existentes, com valor histórico.” (Supõe-se que seja o conjunto “Ponte rotativa para inversão de marcha e castelo de água”.)

2 – Uma parte do terreno, inicialmente destinado ao parque de estacionamento, “deverá ficar em reserva para a eventual implantação de uma grande superfície”.

Temos assim, numa frase, mais um exemplo da péssima gestão camarária, que não consegue acertar uma previsão, o esclarecimento mais preciso do acordo de cedência do terreno, e a confirmação da conhecida sentença “ninguém dá nada a ninguém”.

Tudo bem visto, a Infraestruturas de Portugal, fez com competência aquilo que lhe compete: Trocou a cedência temporária do terreno para o parque, por um alvará definitivo para a instalação de uma grande superfície, talvez a Mercadona. O que poderá significar a longo prazo um parque de estacionamento gratuito, mas cuja saída só será possível mediante a apresentação do talão de compras, sem o qual a cancela automática não abre. Estão a ver o truque? A culpa não será da autarquia, mas da grande superfície.

Mais tarde, uma vez confirmado o interesse da “grande superfície”, vão começar as habituais tranquibérnias, com o polvo camarário a complicar as coisas, alegando a necessidade de alterar o PDM e de fazer ou refazer planos de pormenor, tudo para entretanto ir vendendo facilidades por portas travessas.

Perante o costumeiro silêncio cúmplice dos tomarenses, ao que parece geneticamente pachorrentos em demasia, tudo isto dá vontade de perguntar: Mas que raio de terra é esta?

Margarida Magalhães

4 comentários

  1. Cabe perguntar desde já, para não ficar depois desagradavelmente surpreendido: Descontando a parte do terreno para a preservação do património, e a outra parte para a referida grande superfície (se vier mesmo !!! pode ser só o habitual fogo de vista), o parque PÚBLICO vai ficar com quantos lugares?

  2. Respondendo a esta Sua questão
    O parque PÚBLICO vai ficar com quantos lugares?
    0 (zero) lugares, porque de Público não tem nada, apesar de este espaço ser pertença de uma Empresa Pública, não é sinónimo de ser um Parque Público.
    Depois da Câmara gastar n de dinheiro Público, possivelmente para fazer o jeito a alguém, a questão que se coloca é a seguinte, depois de terminar o Contrato de Arrendamento do dito espaço, tudo o que nele foi feito reverte a favor de quem e em que condições ?
    Isto é que era interessante saber, assim como quais as condições redigidas no dito Contrato.

    1. Cabe ao administrador do blogue, funcionário da câmara em licença sem vencimento, conseguir uma cópia desse contrato. Deve dispor de bons contatos lá dentro.
      A não ser que, como recebe uma avença mensal de uma entidade controlada pela Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, cuja presidente é Anabela Freitas…

  3. Um dos grandes problemas do país, sobretudo autárquico e em regiões de eleitores nada exigentes como os tomarenses, predomina a filosofia do “sacar dinheiro para obras”. Como tais “gestores” não tem competência técnica nem visão estratégica, o planeamento é mau , feito para a duração do mandato e como, tirando o tribunal de contas, ninguém os controla, acontecem coisas destas: obras de fachada, inúteis e sem retorno económico. Com a Av. Nuno Álvares vai ser igual.

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