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Defensores e todavia inimigos principais da Festa dos Tabuleiros

Margarida Magalhães

Até parecia o início da Marselhesa (o hino nacional francês, para quem ainda não sabia): Às armas cidadãos!!!  A semana passada, quase todos os que em Tomar costumam escrever gratuitamente para publicação, se insurgiram galhardamente para defender a Festa grande. Houve mesmo quem avançasse com a necessidade imperiosa e urgente de processar judicialmente os autores da ofensa. E quem conseguisse arranjar matéria já amplamente conhecida para ocupar toda uma página do semanário decano local. A velha e errada ideia de que quanto maior, melhor e mais importante.

Tanto alarido por tão pouca coisa. Uma entidade privada, que leva a efeito os popularuchos concursos televisivos “7 maravilhas”, revelara antes que a Festa dos tabuleiros estava inscrita, recusando contudo indicar quem pagou os quase 180 euros da inscrição.

Logo a seguir, conforme já aqui foi noticiado, o triunvirato Câmara-Misericórdia-Mordoma avançou com um comunicado a demarcar-se da ousadia, usando argumentação inadequada.

Foi quanto bastou para desencadear o acima referido apelo às armas, em defesa da legitimidade tomarense, contra quem quer abastardar ou prejudicar os Tabuleiros.

O curioso desta situação é que, bem vistas as coisas por quem esteja de fora, mas conheça bem o tema, estes e outros defensores da Festa dos tabuleiros são afinal os piores inimigos da sua continuidade.

Sucintamente, a questão é esta: Os tabuleiros foram, na origem, um cortejo de oferendas realizado anualmente e financiado totalmente por particulares, com um pretexto e uma finalidade. O pretexto era a comemoração das colheitas. A finalidade era o bodo aos pobres. Tudo sob a égide da Misericórdia, uma entidade católica de caridade, o que obrigou a que a antes pagã festa das colheitas passasse a ser “do Espírito Santo”.

A crise local, que data de séculos, agravada pelos elevados tributos e as más colheitas, com a debandada do operariado agrícola para as fábricas, fez com que os fazendeiros, os comerciantes e os industriais deixassem de ter condições para organizar a festa anualmente. O cortejo passou então a só desfilar nas ruas quando Deus queria.

Teria mesmo caído no esquecimento, não fora a muito oportuna intervenção de um estrangeirado, que provocou uma fractura irremediável nos caducos hábitos locais. João Simões, o “Jones”, engenheiro têxtil formado em Inglaterra, que dirigia a Fábrica de fiação e não era tomarense, viu o que poderia ser uma legitimação monumental do poder municipal, na altura não eleito por sufrágio directo.

Conseguiu o apoio do então presidente da câmara, o tomarense capitão Fernando de Oliveira, e o novo figurino da festa avançou. Estava consumada a ruptura com o passado.

A festa passou a ser paga pela câmara, começou a haver a bênção na praça fronteira aos Paços do Concelho, com a inerente legitimação do poder municipal, mantendo-se apenas do antigo modelo o bodo aos pobres, sob a designação de “distribuição da peza”.

No primeiro cortejo do novo formato, como se diria agora, ainda houve alguns tabuleiros oferecidos por particulares, como no antigamente, porém as portadoras eram quase todas operárias na Fábrica de fiação e os seus pares de ocasião soldados do Regimento de infantaria 15.

Perante isto, não adianta insistir na confusão entre bexigas de porco e lanternas eléctricas. A festa já não é do povo, e também já não é um cortejo de oferendas, para ofertar um bodo aos pobres. Tão pouco é uma celebração das colheitas, pois estas são anuais e a festa é quadrienal, por não haver dinheiro para mais.

Temos portanto que, nos nossos dias, sem que tal seja depreciativo, os Tabuleiros são uma manifestação paga e organizada directa e indirectamente por quem dirige a autarquia, tendo como finalidades principais a satisfação do narcisismo local, a promoção turística e a compra de votos.

Nestas condições, sendo as coisas aquilo que são, os autoproclamados defensores da festa são também os seus principais inimigos, ao recusarem liminarmente qualquer alteração do figurino actual. Ou mesmo qualquer debate sério sobre o assunto, propiciatório dessa inevitável mudança, caso se queira realmente que a festa sobreviva para os séculos seguintes.

Refiro-me, como decerto já se percebeu, ao financiamento da festa. O meu entendimento é este: A Festa dos tabuleiros deve ser anual e deve ser um investimento, em vez de uma despesa como é actualmente. Deve dar lucro a contar da 3ª edição. A Câmara deve retirar-se completamente da organização, que será entregue a um comissário, a recrutar por concurso público, o qual contará com a colaboração das juntas de freguesia, em moldes a definir.

Sem isto, a Festa grande dos tomarenses está condenada a longo prazo. Ou se adapta ou morre pouco a pouco e desaparece. É a lei geral das espécies. Neste caso porque, por muitos esforços que venha a fazer, a partir de certa altura a Câmara deixará de ter recursos para pagar a festa. Qualquer que seja a sua cor partidária, ou a competência dos eleitos.

É inevitável, porque a festa vai custar cada vez mais dinheiro e a câmara vai dispôr de cada vez menos recursos monetários, designadamente devido ao despovoamento e à crise económica.

Dirão os acérrimos defensores da festa, os tais inimigos principais, que, a ser verdade, isso ainda vem lá muito longe. Olhem que não! Olhem que não!

Disse há uns dias a srª presidente da câmara, respondendo a perguntas insistentes, que as contas da festa já estão fechadas, mas a câmara ainda não as conhece. Como sempre, nenhum jornalista arranjou coragem para avançar com a pergunta fatal: Porquê?

Compreendo a atitude dos profissionais da informação local, que têm família, comem todos os dias, e dependem do ordenado. Uma pergunta ou uma frase mal colocadas, podem deitar tudo a perder. E os tempos estão cada vez mais difíceis. Adianto por isso a inevitável resposta ao porquê, caso a srª presidente quisesse dizer a verdade, toda a verdade e ficar por aí:

As contas dos tabuleiros estão fechadas há meses, uma vez que a contabilidade moderna é muito rápida, graças à informática. A Câmara já as conhece, mas não o pode dizer publicamente, para evitar eventuais escândalos. As ditas contas só serão oficialmente entregues ao executivo municipal, uma vez pagas as dívidas ainda existentes, cuja liquidação depende da prévia transferência da totalidade das verbas prometidas pelo Município, todavia ainda não integralmente realizada, devido à carência de fundo de maneio.

Em termos mais simples, a Festa ainda tem dívidas pendentes, porque a câmara ainda não lhe entregou todos os fundos que prometeu. E não pode legalmente fechar contas com dívidas pendentes e não provisionadas.

Num longo texto que li no Cidade de Tomar, um excelente conhecedor e colaborador da festa e da câmara, escreveu que a executivo municipal vai cativando ano após ano verbas para a edição seguinte da festa. Se, mesmo com essas cativações, quase um ano depois da festa, a câmara ainda não está em condições de honrar os seus compromissos, imagina-se o que será daqui a 15 ou 20 anos.

Ou mesmo já nas próximas edições, em 2023 e 2027.

                                                       Margarida Magalhães

 

Comentários

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  1. Muito raramente se consegue convencer um tóxico-dependente de que o seu consumo de álcool e/ou drogas vai encurtar singularmente a sua vida. Não quer ouvir, ouve mas faz de conta que não, não acredita, concorda mas não tem força anímica para alterar o seu comportamento.
    O mesmo acontece com os tomarenses face à crise atual, aos Tabuleiros, às obras apalermadas e por aí fora. Nem querem ouvir falar, quanto mais agora alterar as coisas. Muitos deles gostavam era de saber quem são os malandros que, a coberto do anonimato, vão tecendo críticas injustas, que só mostram ignorância e inveja. Parece que os estou a ouvir: “Se soubesse quem foi o gajo ou a gaja que teve a lata e a pouca vergonha de escrever isso, ia logo partir-lhe o focinho. E era bem feito”
    É bem sabido, desde há dois milénios, que quando a mensagem não convém, mata-se o mensageiro, sempre que possível. Felizmente vivemos em democracia. Mas a bárbara sede de violência mantém-se. E a crise vai-se agravando, perante a indiferença e até o aplauso dos mais boçais. É triste.

  2. Tudo caladinho, o mais silenciosamente possível. Parecem as carpas e barbos ali do viveiro junto à Bela Vista. Convencidos que silenciando os problemas, eles deixam de existir. Palonços como quase sempre.
    Esta terra sempre teve pouca sorte com os seus filhos.

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