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As tradições, o açude, os votos e os pavões

Foto de João Capitão

Confrontado com mais uma asneira da Câmara, a transformação ilegal de um açude sazonal desde há séculos, num açude permanente, o comerciante tomarense Américo Costa voltou a intervir, conforme pode ler aqui.

Queixou-se às autoridades competentes e decerto vai estar em mais uma reunião pública do executivo para protestar de viva voz.

Tem toda a razão Américo Costa. Tentando justificar o injustificável, os avultados subsídios para as várias festas, os senhores camaristas alegam que se trata de cumprir a tradição. Porém, neste caso do açude do Mouchão, e do sistema de rega que dele resultava, mas foi destruído durante os mandatos PSD, apesar de se tratar de água captada por um método não poluente e tradicional na região, a tradição já não interessa. O que importa sobretudo é que a câmara gaste menos dinheiro e os seus funcionários trabalhem o menos possível.

Perante tais desmandos, o cidadão Américo Costa, que não precisa da política para nada, tem vindo a bater-se galhardamente em prol daquilo em que acredita. Pois infelizmente, de pouco ou nada lhe tem valido a sua entrega às causas públicas. O bisonho eleitorado que somos deu-lhe 333 votos quando em 2017 concorreu à câmara, e apenas 51 quando este mês se candidatou a deputado. Paralelamente, aqueles que paulatinamente vão arruinando a cidade e o concelho (quiçá sem disso se darem conta, porque a cabeça não chega a tanto, mas o resultado prático é o mesmo) continuam a conseguir angariar milhares de votos. É o chamado tributo aos pavões, uma nova tradição local desde há quase cinco décadas

Face a resultados assim, valerá a pena continuar a lutar pelas suas ideias? Creio bem que não. A não ser como mero passatempo.

O eleitorado passa o tempo a lastimar-se, mas a realidade mostra que, lá bem no fundo, acha que não estando tudo bem, podia estar bem pior.

Não se podendo mudar de população, resta desejar um lindo enterro a todos e a cada um.

                                                                  Gualdim Porque Sim

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  1. O principal culpado é o próprio Américo, que não cuida da sua popularidade.
    Se em vez de se meter em causas quixotescas, pagasse umas jantaradas e umas cervejolas. Se em vez de ir chatear os excelentes autarcas que temos, fosse ver uns desafios do ganda União, ou uns encontros do fenomenal Sporting de Tomar/Politécnico, de preferência envergando as respectivas camisolas.. Se em vez de gastar dinheiro com o cãozinho, pagasse umas quotas generosas para os clubes e associações locais. Se, finalmente, deixasse o rio em paz e passasse a debitar só banalidades e tretas, em vez de pôr sistematicamente o dedo na ferida. Então sim, teria milhares de votos. E, com algum apoio dos partidos velhos e gastos, até era capaz de ser eleito. E aplaudido pela população que temos e que Deus abençoe. Se puder.
    Vai uma aposta?

  2. Um abraço ao sr. Américo, que não tenho o gosto de conhecer pessoalmente. Saiba que apoio as suas causas. E que também lamento a sua sorte. O sr. nasceu numa terra cuja população em geral pensa e age de modo diferente do seu. O que significa que não age nem pensa. Gosta mais de eventos. Sobretudo de cortejos ou procissões. Entende-se. Andam a treinar para o cortejo ou procissão final: o enterro da cidade e do concelho. E, mais tarde ou mais cedo, de certeza, o cortejo final, com encomendação e flores, para cada um dos habitantes.
    Cumprir a tradição. A vida aqui em baixo é apenas uma passagem. A vida eterna é lá em cima, no céu. Pois.

  3. Esta asneira camarária é tão óbvia e extravagante, que a transforma numa autêntica barbaridade. Os factos são estes: A srª que preside e os restantes membros do executivo nunca devem ter ouvido dizer que “a água tem memória”. Não se trata é claro de ter memória como os humanos e restantes seres vivos. Apenas aquela memória que leva a água a invadir de novo, aquando das inundações periódicas, os terrenos que já integraram o seu leito. Ou seja, no caso do Nabão, a Várzea grande e a Várzea pequena. O que corresponde a toda a cidade antiga aquém da ponte.
    Para os menos versados nestas coisas, (os não tomarenses, porque os tomarenses esses já sabem sempre tudo), esclarece-se que o vocábulo várzea quer dizer terreno permanentemente alagado, como por exemplo as várzeas dos arrozais.
    E foi assim -alagados durante todo o ano- que estiveram os terrenos da baixa de aquém da ponte até ao princípio do século XV. Quando o Nabão foi regularizado, para instalar os moinhos e lagares da Ordem de Cristo, estabeleceu-se que, além do açude fixo dos frades (e séculos mais tarde o açude real), só podia haver açudes precários, para as regas, montados no início da primavera e retirados no início do Outono. Para reduzir os riscos de inundações.
    Mesmo assim, como testemunham as marcas na cantaria da porta da Farmácia Torres Pinheiro e no gaveto da Bela Vista, a água já veio cá fora, por vezes até mais de um metro de altura.
    Na época contemporânea, já houve pelo menos uma vez em que a autarquia teve de enviar máquinas para desmanchar à pressa o açude provisório.
    Concluindo, agora que até mandaram enrocar, com pedra de média dimensão, a base do açude do Mouchão, se houver um dia destes uma daquelas inundações bruscas, como as que têm ocorrido na Catalunha e no sul da França, uma vez inundada toda aquela zona limítrofe, a câmara vai enviar o quê para resoiver o assunto? Um helicóptero pesado, que não há em Tomar? Ou um comunicado mal redigido a garantir que ninguém podia prever semelhante calamidade?

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