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Recordar Alberto Graça

O sr. Alberto Graça foi durante décadas tipógrafo em Tomar. Foi também militante comunista clandestino, controleiro dos tipógrafos locais. Logo a seguir ao 25 de Abril, já reformado, foi indicado para substituir o prof. António Rebelo, conhecido socialista local, como vereador, na primeira comissão administrativa da câmara de Tomar. Foi uma das primeiras histórias tristes da democracia em Tomar.

Durante um plenário popular, convocado para o pavilhão municipal, quando se aprovou a substituição imediata do elenco camarário, passou-se à indicação de nomes para a comissão administrativa que a ia substituir. O dr. Antunes da Silva, conhecido oposicionista local, foi avançado para presidente, e Fernando Patrocínio, da comissão de trabalhadores de Fábricas Mendes Godinho, lançou o nome de António Rebelo.

Terminado o plenário, alguns elementos liderantes foram entregar a lista no então quartel general, para conhecimento e aprovação do MFA. Foi então que, numa manobra ainda hoje mal conhecida, mas já com o claro intuito de colocar comunistas por todo o lado (e Fernando Patrocínio, que indicara o nome do prof. Rebelo, tinha sido expulso do partido anos antes), o prof. António Rebelo foi substituído pelo sr. Alberto Graça. Ao que constou na época, o arquitecto da manobra foi José Maria Mendes Godinho, mais tarde deputado pelo PS e fraco líder local.

Poucos dias depois, a comissão administrativa, cuja única obra importante foi a substituição, na escadaria dos Paços do Concelho, do painel “Tudo pela Nação/Nada contra a Nação”, pelo “Povo é quem mais ordena”, que  ainda hoje lá está, foi tomar posse. Fernando Patrocínio, sempre muito activo e constestatário feroz (foi sepultado com a bandeira do B.E. cobrindo o caixão), perguntou então aos novos autarcas, em voz alta: -“Mas os senhores, que não têm qualquer programa, nem vontade de o escrever, afinal o que é que vão fazer para a Câmara?” Respondeu-lhe, com bons modos, porque na época ainda não se confundiam cidadãos contestatários incómodos com inimigos pessoais de estimação, o dr. Antunes da Silva: -“Vamos despachar os assuntos correntes.”

Entretanto, já passaram 46 anos e 11 presidentes de câmara, uns do PS, outros do PSD, outros ainda da AD. Só o programa é que continua a ser praticamente o mesmo -despachar os assuntos correntes. Com vagar, que pensar e trabalhar são actividades que cansam muito.

Quanto ao honrado cidadão e excelente tipógrafo Alberto Graça, já vereador sem pelouros na Comissão administrativa, começou a lamentar-se que era magro o salário de tipógrafo, pelo que o nomearam guarda do Convento de Cristo, um lugar bem remunerado graças às gratificações dos visitantes, que naquela altura eram abundantes pois a entrada no monumento era gratuita.

Que descanse em paz.

José Cidade Velha

Comentários

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  1. O meu pai, Fernando Patrocínio, nunca pertenceu ao Partido Comunista, pelo que nunca poderia ter sido expulso do mesmo.
    E se era contestatário (na minha opinião, não), o adjectivo “feroz” é inútil e tendencioso. Um contestatário, pura e simplesmente, é-o. Além de que o facto de ser contestatário, nada tem a ver com aquele outro de alguns elementos do BE local, resolverem prestar-lhe a sua (deles) homenagem com uma bandeira vermelha, que não a do BE, sobre o caixão. E isto, muito embora, o meu pai já se ter afastado das lides políticas uns bons anos antes de morrer.
    Quanto ao restante que conta, não faço a mínima ideia se assim se passou, ou não.
    Há, no entanto, aquele provérbio: “Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”. E, como já o comprovei atrás, o Sr. acrescentou demasiados pontos.
    Cumprimentos.

    • É a sua versão da história, minha senhora. Que respeito.
      Devo contudo lembrar-lhe que nem sempre os filhos sabem tudo da vida dos pais. É o caso. Informe-se melhor, indo às fontes. Logo concluirá que, antes do apoio à candidatura de Humberto Delgado, da CDE e, já depois do 25 de Abril, da FEC-ML/OCMLP/UDP, o seu pai pertenceu ao PCP clandestino.
      A respeito do adjectivo feroz, é tudo uma questão de leitura e de contexto. Filha, se calhar nunca teve ocasião de debater política a sério com ele.
      Aproveito para relatar um episódio que talvez a senhora desconheça. O seu pai foi detido pela PIDE, quando jogava xadrez com o Carlos Loures, da Gulbenkian, no café Paraíso. Um dos amigos dele, bem relacionado, pediu a quem tinha poder que não o maltratassem.
      Meses mais tarde, encontraram-se. E esse amigo limitou-se a perguntar como o tinham tratado na prisão. – “Cabrões!!! Para eu não poder dizer mal deles, não me bateram e até as refeições vinham de um restaurante em frente. Bandalhos!!!
      E o Fernando, seu pai, faleceu ignorando que alguém tinha pedido ajuda para ele, junto de um conhecido general fascista tomarense, por mero acaso também Fernando.
      Aqui fica, para a história local.
      Que ambos, ele e o general inimigo, descansem em paz.

      • Muito embora, não tenha a veleidade de acreditar que conhecia o meu pai em todas as suas acções, volto a repetir: o meu pai nunca pertenceu ao PCP. Pertenceu ao MDP/CDE, no período anterior ao 25 de Abril. O meu pai, referiu algumas vezes em discussões comigo e com outras pessoas, que contrariamente ao que era comummente acreditado, nunca tinha pertencido ao PCP. Não iria mentir, certo? Aliás, posteriormente ao 25 de Abril, houve, pelo menos uma abordagem do referido partido para que ele se tornasse seu militante, tendo o meu pai acabado por a rejeitar. Caso tivesse sido anteriormente expulso, tal não se verificaria.
        Seria melhor o senhor informar-se, não?
        E mais uma vez, supõe coisas que não sabe: por exemplo se discuti política com o meu pai ou não. Por isso, não considero que fosse contestatário: era um político, melhor que muitos que grassam por aí, com um ideal, se quiser, uma utopia ( no bom sentido) e para isso tinha uma estrutura de pensamento bem delineada e o que não coubesse nela devia ser combatido. Isso é ser contestatário? Pode dar essa impressão, mas o facto de se contestatar com uma argumentação sólida, não reduz a pessoa a ser contestatária. Se era acalorado nas discussões, era. Daí, a ser feroz….
        Sobre o momento exacto da prisão, não sei… Tinha ideia, que o tinham ido buscar à livraria “Raíz”. Mas, efectivamente, não sei. Sei de outras coisas, mas tinha 12 anos e havia assuntos que não eram abordados.
        Relativamente a ajudas para sair da prisão, conheço uma: a do Senhor João Novais, ao qual o meu pai ficou eternamente grato.
        Os factos pertencem à História, as leituras que deles se fazem, pertencem ao domínio dos mitos.

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