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O Nabão, a poluição e as obras camarárias

Uma gestão camarária atrapalhada – 2

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Opinião de António Rebelo

Segundo a srª presidente da Câmara, é agora a ocasião indicada para fazer pressão sobre os órgãos governamentais. Refere-se à crescente poluição do Nabão e à urgente necessidade de sacar, via bazuca europeia, 22 milhões de euros para tentar resolver o problema do nosso querido rio. Curiosa maneira de ver as coisas!

Convém, antes de mais, caracterizar o problema e situá-lo no tempo, como forma de evitar, na medida do possível, futuros dislates.

O primeiro agravamento da poluição do Nabão, provocada por efluentes de origem humana, data do século XV, época do surgimento dos primeiros açudes e lagares da Ordem, que vieram juntar-se aos esgotos “a céu aberto” que corriam para o rio. No século seguinte, a situação agravou-se, com a fixação no actual centro histórico da maior parte da população até então residente lá em cima, em Santa Maria do Castelo.

Tinhamos então uma poluição de dois tipos, a sazonal e a permanente. A sazonal tinha origem nos vários lagares que despejavam para o rio um líquido acastanhado, proveniente do processo de extracção do azeite, a chamada almofeira. Ocorria sempre no Outono e era inofensivo para a fauna e a flora ribeirinhas. A outra, era a dos esgotos urbanos, uns a céu aberto, outros já de colector único.

Nos finais do século XIX, altera-se a secular situação,.com o aparecimento de várias indústrias de maior envergadura a enviar os seus efluentes para o rio. A montante da zona urbana, além dos vários lagares entretanto em funcionamento, na sequência da liberalização dessa actividade devido à extinção da Ordem de Cristo, que antes detinha o exclusivo, apareceram a Fábrica de papel de Porto Cavaleiros, a Fábrica de papel do Prado e a Fábrica de Fiação, todas já desaparecidas. Restam as ruínas.

Só a partir dos anos 60 do século passado, a poluição do Nabão começa a incomodar os tomarenses. Mais precisamente os pescadores desportivos, liderados pelo ilustre tomarense Nini Ferreira, líder dos “mau-maus”, os sócios do Clube dos amadores de pesca, por ele fundado e também já defunto. Chegou até nós um programa televisivo de 1973, dando conta de uma mortandade de peixes no Nabão, provocada por uma descarga mal calculada de solventes da Fábrica de papel do Prado.

Já neste século, resolvido quase totalmente o problema dos efluentes urbanos, com a construção da ETAR de Cardais, (entretanto abandonada) e mais tarde de Santa Cita, apareceu a partir de 2004 uma nova fonte de poluição. E que fonte!

Partidários da gestão municipal o mais opaca possível, pela liberdade de asneirar que tal faculta, eleitos tomarenses e eleitos oureenses, todos do PSD, acordaram entre si a construção da ETAR urbana de Ourém, na freguesia da Sabacheira, concelho de Tomar. Houve naturalmente contrapartidas negociadas, ao que parece reduzidas a 50% do prometido aquando da sua implementação no terreno.

E aí temos o resultado. Subdimensionada, por erro ou deliberadamente, a ETAR de Seiça despeja os efluentes para o Nabão sempre que chove, porque não há separação de emissários, como manda a lei. Em vez de um colector para águas sujas domésticas e outro para águas pluviais, corre tudo pelo colector único.

Tal como ainda acontece na zona da Rua do Pé da Costa de Baixo, Largo do Quental, Rua Direita, Rua Aurora Macedo e Rua Joaquim Jacinto, em pleno centro histórico, a menos de cem metros da Câmara de Tomar, e não comove os eleitos. Preferem ir aumentando a rede de saneamento rural, de forma a conseguir novos consumidores forçados de água da rede, com as respectivas taxas agregadas, em vez de resolver antes a triste situação dos consumidores urbanos da antes referida zona, já forçados a pagar o tratamento de esgotos que afinal não são tratados.

E assim estamos. Ao cabo de dois mandatos com protestos contra os sucessivos episódios de poluição do rio. Ao cabo de dois mandatos a tentar endrominar a população com desculpas das mais variadas. Após ter desmantelado os até aí tão protegidos SMAS. Após a transferência da rede e das obrigações para a TEJO AMBIENTE, uma empresa intermunicipal liderada de facto por Ourém, mas por ora presidida por Anabela Freitas, a srª lá reconheceu finalmente que a principal origem da poluição é mesmo a ETAR de Seiça. Com outros culpados eventuais, entre os quais uma suinicultura.

E aconteceu então mais um milagre de Fátima, que fica no concelho de Ourém. Um alto responsável técnico da TEJO AMBIENTE anunciou pouco depois que, mediante um investimento global de 22 milhões de euros, o problema da poluição do Nabão ficará QUASE totalmente resolvido. Há aquele aborrecido QUASE, mas como todos sabemos “o óptimo é inimigo do bom”.

É para financiar este projecto, ou conjunto de projectos, que Anabela Freitas pede agora o apoio da população que andou a enganar durante anos. Se calhar porque só agora reparou que as eleições são já ali adiante e que, como sempre, o resultado é incerto.

Esquece a srª presidente que o apregoado “projecto dos 22 milhões” é ainda um ilustre desconhecido. Terá de passar forçosamente pela fase da discussão pública, por imposição de Bruxelas. E ninguém gosta de apoiar soluções que desconhece.

Infelizmente continuamos em Tomar com uma gestão camarária atrapalhada. Até quando?

 

(Peço desculpa pelo “lençol”. Julgo que ainda ninguém descobriu uma maneira prática e eficaz de explicar muito em poucas linhas.)

                                                                     António Rebelo

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Escrita por António Rebelo

Comentários

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  1. Bom dia Professor Rebelo

    Após leitura desta sua opinião (que mais parece uma telenovela), ficaram-me alguma dúvidas.

    1º A ETAR de Seiça recebe os esgotos de que Concelho ?
    2º Caso receba os esgotos do Concelho de Ourém, quem recebe as taxas dos resíduos, o Concelho de Ourém ou o Concelho de Tomar ?
    3º Porque razão é só um dos concelhos a ter que investir numa ETAR que recebe os resíduos de dois concelhos ?
    4º Caso a verba venha a ser aprovada (o que eu duvido), esta destina-se a que Concelho ?
    5º Ou será que o Concelho de Tomar pede para engordar a TEJO AMBIENTE ?

    É que caso aconteça o que se encontra descrito no ponto 5, será o Município de Tomar a arcar com tudo, mas o mais importante, é que serão todos os Tomarenses a suportar tudo isto.

    E tudo isto, derivado ás incompetências de alguém (singular) ou de os muitos (plural) que rodeiam e aconselham (talvez com alguns interesses camuflados) quem decide.

    Resumindo e concluindo, já começámos na pré campanha das Autárquicas, como tal e para os mais distraídos, nada como contar um belo conto de embalar.

  2. Grato pelo seu comentário, que mostra a utilidade daquilo que escrevi: informar de forma completa os leitores-pagadores.
    Se fosse mesmo uma telenovela, até já tinha um título que me parece o mais adequado: POLUIÇÃO DO NABÃO E PODER MUNICIPAL ALDRABÃO.

  3. Professor Rebelo,

    O título poderia ser também

    “A VAQUINHA VOADORA QUE POLUI O RIO NABÃO”

    ou ainda em alternativa

    “RIO NABÃO ANDA A SER POLUÍDO PELAS DESCARGAS DAS VACAS VOADORAS”

    Não nos podemos esquecer, que em tempos não muito longínquos foi apresentado por um determinado politico a todos os Portugueses uma VACA VOADORA, como se fosse ela (a Vaca) a salvação deste País.

    Quando assim se pensa e tenta incutir aos outros o mesmo pensamento, mal de Nós.

  4. Este processo foi desastroso, mas o mais grave é que continua a sê-lo
    Algumas notas:
    – A Etar de Seiça foi construida em 2002, mas os problemas tem se agravado em anos recentes. Fundamentalmente porque o emissário está assoreado e é unitário (https://omirante.pt/sociedade/2020-05-30-Combate-a-poluicao-no-rio-Nabao-comeca–com-um-investimento-de-10-milhoes).
    – Será necessário construir um novo emissário e uma nova Etar (daí os 22M€,,), porque razão não é construído junto dos locais que serve (concelho de Ourém)?
    – É referido que o concelho de Tomar usufrui dessa Etar, mas tal não é correcto, porque a freguesia da Sabacheira não tem rede de esgotos domésticos. Foram executados alguns troços nas ruas, mas os ramais de ligação às casas e os emissários não (https://www.smastomar.pt/wp-content/uploads/GOPO/GOPO2018.pdf pag19)
    – Porque razão a Etar existente não é mantida (e atualizada tecnologicamente) e passar a servir apenas o concelho de Tomar, e o concelho de Ourém constrói uma nova na proximidade das áreas que serve e reduzindo o custo de emissários novos (10M€)?
    – Ter em conta que na zona desta Etar “de Seiça” (mas fica na Sabacheira, junto a ribeira da ..Sabacheira) existem mais duas (Etar Formigais e Etar Chãos)

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