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Morreu um dos últimos canteiros

Foto de António Freitas

Foi a sepultar nesta quarta feira, dia 9, António Silva Nunes Carrão, um dos canteiros mais antigos de Tomar e um dos poucos representantes desta profissão em vias de extinção.

Tinha 83 anos e trabalhava na sua oficina no Alto da Venda Nova, freguesia de Casais.

O jornalista António Freitas publicou um texto sobre a vida e obra deste homem que, com as suas mãos, criava autênticas obras de arte.

“Perdeu-se uma “grande escola” da arte de trabalhar a pedra

Oito anos após ter registado estas imagens e feito uma pequena reportagem no jornal que sempre assinou e leu, num ano em que quase não nos podemos despedir dos que partem, partiu um homem bom, com um perfil de pessoa serena, tranquila e acima de tudo um grande artista da pedra. Só podia ser da Pedreira, esta terra que lá no alto, quase a beijar o céu, deu e dá e alberga grandes artistas da pedra, os canteiros como é apelidada a profissão, e em que António Silva Nunes Carrão, era mais que um canteiro, era um escultor, sem nunca ter frequentado a Escola das Belas Artes. Tinha 83 anos, era casado com Felicidade Cacho e teve três filhas a Maria Luísa, a Filomena e a Ana Isabel e seu genro Elísio que foi aprendiz na sua oficina na Venda Nova, e que seguiu com o negócio da pedra. Ver agora nos últimos tempos, e já na sua nova oficina nos Casais, depois de anos ter estado na oficina de renda que geria e mantinha postos de trabalho no Alto da Venda Nova, oficina esta mais espaçosa e moderna, e entregue ao seu genro a fazer ou melhor a esculpir, o que lhe dava prazer, era nos focarmos na letra do poema de António Gedeão e na “Pedra filosofal” e sentir que:

“Eles não sabem que o sonho

É tela, é cor, é pincel

Base, fuste ou capitel

Arco em ogiva, vitral

Pináculo de catedral

Contraponto, sinfonia

Máscara grega, magia

Que é retorta de alquimista”

De uma pedra de ançã ou de um Moleano de Porto de Mós, ou um duro granito, lá saía um santo, um pináculo, uma cruz templária ou de cristo e a base esculpida em gesso, servia de molde, ao pantógrafo que do que criou, boliu e aperfeiçou e “deu vida”, projectava num bloco e com muita paciência, e saber, com escopros ou cinzéis, bojardas e gradim por vezes com a ajuda da rebarbadora, “dava vida a pedras” saindo rostos lindos, que nos transmitiam vida, sorrisos e ternuras. Só para conhecer as ferramentas era necessário estar atento e ouvir, bedame, escacilhador, ponteiro, gradim recto e curvo, cinzel retor, curvo de unha e calado. E era nesse silêncio, que hoje esculpia um pouco, deixava depois a obra, ia até à horta e depois no outro dia continuava. O tempo de trabalhar de sol a sol já tinha passado; o tempo de responder a encomendas de pedra trabalhada, que a escultura nunca enriqueceu os pobres escultores, anónimos!

Foi o eterno canteiro das obras de construção civil do meu pai. Bancadas de mármore, ombreiras de portas e janelas, degraus de escada, era um trabalho vulgar de corte a serra de água e depois polimento, a arte estava depois nos pormenores. Até nas campas de sepulturas grande base do negócio.

Quando podia ia aos meus passeios e estou a vê -lo na Srª da Peneda ou junto a qualquer outro monumento olhando mais além que eu com minha máquina fotográfica. Bases fustes capitéis, esculturas, bolas de ornamentação pináculos de catedral olhava, com olhos de artista, elogiava a obra, sentia as dificuldades que tiveram outros grandes homens de outros tempos e, qual arquitecto com o lápis piscando o olho tirava medidas, a olho e projetos à escala reduzida que desenhava no papel. Depois na oficina com paciência de mestre fazia modelo em gesso cortava aperfeiçoava e dava forma de uma coisa rude sem sentido a uma peça de escultura. Que pena não puder ter ido conhecer grandes “santuários” da arte escultórica, em Itália de escultores clássicos que era a sua paixão. A esta hora no Paraíso os grandes mestres da escultura já o foram buscar, certamente que há obras a fazer. Foi um autodidacta não estudou Belas Artes mas se não fosse nascido no meio rural, podia ombro a ombro arcar com outros nomes sonantes. Nem as escolas profissionais se lembraram que a Pedreira sempre foi e é um alfobre de escultores não de serradores de pedra. Glória ao homem bom o Ti António Carrão. Que descanse em paz”.

António Freitas

Escrita por Redação

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