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Alcobaça e Tomar: soluções opostas para o antigo rossio

Opinião de António Rebelo

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Na mini-querela tomarense sobre o que a Câmara acaba de fazer à Várzea grande, o antigo Rossio, ou campo da feira de Tomar, há meia dúzia de vozes a manifestar-se contra o novo modelo, e outras tantas a favor. Aqueles alegando que não se lhe vislumbra qualquer utilidade prática; estes contrapondo que “está muito bonito”. Tudo isto no meio do pesado e habitual silêncio cidadão da esmagadora maioria dos habitantes. Ia a escrever cidadãos, mas não será propriamente o caso. Cidadão é na prática só quem exerce a sua cidadania. Infelizmente não é o caso de muitos tomarenses, e mesmo podendo parecer que não, todos pagamos isso muito caro.

Procurando ajudar uns e outros a reforçar ou mudar de opinião sobre o assunto, consoante os casos, seguem duas imagens do Rossio de Alcobaça, onde a evolução urbana foi neste caso inversa. Também situado frente a um convento – a célebre Abadia beneditina de Alcobaça – o primitivo Rossio da vila foi a dada altura urbanizado ao gosto da época:

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Conforme se vê na foto, além de “muito bonito”, como agora em Tomar, tinha várias utilidades práticas: sombra, estacionamento de ligeiros e autocarros de turismo, bem como sanitários modernos.

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Se calhar formados noutras escolas superiores de belas artes, ou mais viajados por esse mundo fora, por conseguinte com o tal toque cosmopolita que tanta falta faz, entenderam os urbanistas alcobacenses fazer com os fundos europeus o inverso de Tomar. Acabaram com o ajardinamento, suprimiram o asfalto e o estacionamento, mantiveram os sanitários, assim voltando a dar ao Rossio o seu aspecto primitivo.

Exactamente como estava a Várzea grande antes das recentes obras milionárias com fundos europeus. O argumento do estacionamento desordenado e que degradava o solo, não colhe. Em Alcobaça ainda não foi preciso ajardinar de novo para suprimir o estacionamento abusivo. Bastou voltar ao piso de terra batida e interditar.

Tão pouco parece adequado falar de “nova centralidade” em relação à Várzea grande. Que irão as pessoas para lá fazer? Ao contrário de Alcobaça, não há esplanadas, nem cafés, nem outros estabelecimentos.

O saudoso cidadão Vasco Pena Monteiro, (um honrado homem de negócios de direita, que foi fundador e militante do PPD em Tomar, bem como presidente da Assembleia Municipal), costumava dizer que há coisas e gente sem categoria nenhuma. Parece-me ser o caso da Várzea grande. Cada um que tire as suas conclusões.

Alcobaça tem 48.556 eleitores, estando a 49 kms de Tomar em linha recta, e a 68 por estrada. Nos últimos 15 anos, entre 2005 e 2020, Alcobaça ficou com mais 355 eleitores, enquanto Tomar perdeu 4.487 eleitores.

“É devido à interioridade”, sentenciam algumas inteligências nabantinas. Deve ser. Por estrada, Alcobaça está a 16 minutos da costa, pelo IC9, e Tomar a 57 minutos da costa, pela mesma via.  É uma diferença enorme, não é?

Bem repetia o outro -Isto afinal está tudo relacionado. Neste caso as sucessivas aselhices e a sangria demográfica.

Uma desgraça nunca vem só.

 

                                                           António Rebelo

 

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Escrita por António Rebelo

Comentários

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  1. Havendo dinheiro – dos outros – há obra.
    Havendo eleições, há obra.
    Havendo obra, há votos.
    Havendo votos, há festa.
    É esta, infelizmente, a síntese da governação, especialmente a autárquica, nos dias de hoje.
    Há um preço a pagar, mas, com um pouco de sorte, não seremos nós a paga-lo.
    Preparem-se as gerações vindouras.

  2. Alcobaça está inserida na região do oeste onde a atividade económica cresce. Agricultura altamente exportadora e especializada em hortifrutícolas, cerâmicas decorativa, além da cerâmica de tijolos e telhas, reparação naval e pesca. Em complemento turismo de sol e mar em vários lugares, turismo náutico e algum turismo de património em Alcobaça e na pequena vila de Óbidos. Claro que a obra na Várzea em Tomar é inútil e só serve para melhorar o enquadramento das habitações envolventes.

  3. No que respeita à utilidade da nova Várzea, talvez a ​concessão de 1 ou 2 quiosques com esplanadas desse outra motivação para usar o espaço? Com o convento de S.Francisco e museus tão próximos, uma paragem num cafezinho ali a meio podia ser agradável para o turista.
    Já no caso de Alcobaça, desconheço a motivação para essa reversão, mas pessoalmente prefiro viver numa cidade que moderniza os seus espaços. Mas é claro, não descurando o custo benefício.
    Abraço

  4. “Algum turismo de património… …na pequena vila de Óbidos” ???
    Conforme pode ter a gentileza de conferir aqui:
    https://www.dn.pt/edicao-do-dia/06-jul-2020/obidos-dos-2-milhoes-de-turistas-por-ano-aos-870-por-dia-como-se-ergue-a-vila-dentro-da-muralha-12385706.html
    em 2019, antes da pandemia, Óbidos recebeu cerca de 2 milhões de turistas, à média de 4 mil por dia. Nesse mesmo ano, o Convento de Cristo, mesmo com a multidão da Festa do tabuleiros, não chegou às 400 mil entradas. São escalas diferentes, como se constata.
    Quanto ao Mosteiro de Alcobaça, os dados fornecidos pela entidade de tutela, a DGPC, estão falseados. Apenas referem as entradas com bilhete, quando a maioria dos visitantes se limita a visitar os túmulos de D. Pedro e Dª Inês de Castro, que estão na igreja e são por isso acessíveis sem pagar a entrada.

    • Sr. Rebelo. A referência feita a pequena vila decorre de a população local ser de 3000 almas e o concelho ter 12000 residentes (não é de admirar que estes venham a ser os números de Tomar num futuro próximo). Isto não tem que ver com os turistas recebidos; pelo contrário mostra a insuficiência do turismo para fixar população. O Oeste e Alcobaça estão numa região dinâmica com eleitores exigentes, não tolerantes de disparates e que se interessam pela coisa pública, muito para além da gravidez da vereadora.

      • Agradeço o seu esclarecimento. Concordo com a suas restantes afirmações, excepto quando escreve “mostra a insuficiência do turismo para fixar população”. No caso de Óbidos, com forte aposta no turismo, nomeadamente com os sucessivos festivais, com destaque para o do chocolate, não se pode dizer que o turismo não fixa população.
        De acordo com os dados oficiais do MAI, em 2001 o concelho de Óbidos tinha 9.594 eleitores inscritos, e vinte anos mais tarde, em 2021 tinha mais 876, num total de 10.470 eleitores inscritos.
        Em contrapartida, durante o mesmo período, de 20 anos, Tomar perdeu 5.299 eleitores, passando de 39.330 em 2001, para 34.031 em 2021.
        Tudo isto pode ser resumido numa simples palavra que muda tudo: A Câmara de Óbidos aposta no turismo, enquanto a Câmara de Tomar DIZ que aposta no turismo.
        Estou portanto de acordo quando avança que “estes venham a ser os números de Tomar num futuro próximo”, com uma ressalva: SE ENTRETANTO NADA DE EFICAZ FOR FEITO.
        UM PLANOZINHO DE DESENVOLVIMENTO LOCAL FAZ SEMPRE MUITA FALTA.

  5. A sua ideia dos quiosques com esplanada tem mérito. O problema é que agora a Várzea ficou sem sombras durante a maior parte do dia. E sem sombra, só os turistas do norte da Europa é que se sentariam nessas esplanadas, mesmo com os chapéus de sol. Não estou a ver os visitantes do Museu dos fósforos, com entrada gratuita, a pararem por ali.
    Modernizar os espaços, escreve você. O património não se moderniza. Cuida-se e protege-se. A Várzea grande, um vasto terreiro com árvores e sem mariquices estilo novo-rico, é património da cidade. Deve ser respeitada, tal como o Convento, S. João ou os Pegões, por exemplo.
    Um dia virá, estou convencido, em que haverá reversão. Teremos então o almejado estacionamento subterrâneo e de novo o multi-secular campo da feira no velho Rossio da vila, com árvores de médio e grande porte. Há épocas para tudo. Esta em que estamos parece ser em Tomar a dos bárbaros na área do urbanismo. Pela ordem natural das coisas, outras se seguirão, espero que mais promissoras.

    • Entendo a sua preocupação com o património, e o custo/benefício da obra se calhar não é bom (ainda não andei muito pela zona).
      Mas como as cidades não são estáticas, penso que deixar aquela zona em terra em comparação com o que está hoje, prefiro como está hoje. As árvores, espero eu, vão crescer. Por isso, o exemplo de Alcobaça parece um regresso ao passado. Mas enfim, visto de fora, como é o meu caso.
      Em suma, apenas queria dizer que apesar da importância do património, a cidade precisa de coisas novas, a mobilidade é cada vez mais elétrica, precisa de postos de carregamento, espaços de passeio largos, ciclovia e quem sabe, bicicletas elétricas em toda a cidade. As gerações mais jovens valorizam muito isso, assim como jardins e espaços para crianças, ou de co-work. Falar é fácil (e refiro-me a mim!), mas gostava de ver essa tendência a acontecer na cidade de forma mais rápida. Esperemos então que eventuais novas obras tragam maior valor para a cidade!
      Cumprimentos

      • “As árvores, espero eu, vão crescer” escreve você mais acima. Pois vá esperando, caro André. Mas se não erro, as árvores em questão são de pequeno porte e por conseguinte nunca darão sombras de jeito. Até porque naqueles suportes não teriam terra suficiente para isso se fossem de médio ou grande porte.
        Quanto ao resto estou de acordo consigo, salvo no que diz respeito a obras novas, que naturalmente e para nossa desgraça seguirão o mesmo estilo novo-rico.
        É bem conhecido o dito popular “quem não sabe o que fazer, faz colheres”. Aqui em Tomar, uma vez que a actual maioria nunca teve nem tem planos dignos desse nome, seja para o que for, vai mandando fazer o que vai aparecendo, e depois logo se vê. Nun’Álvares, Várzea grande, Praceta Raúl Lopes, Estrada da Serra, a vaga de ornamentações vai crescendo, enquanto a qualidade de vida vai regredindo, tantas são as asneiras.

        • Caro António Rebelo, pode-me dizer que espécies de árvores foram plantadas? Não tenho essa informação e gostaria de confirmar se são de pequeno e médio porte. Foi realmente triste o abate de todas as grandes árvores, agora temos que esperar 20 anos por novas sombras, mesmo que pequenas. Realmente um espaço para micro empresas poderia dar dinamismo ao local.

  6. A Várzea Grande, pelo menos era grande antes de ter sido progressivamente amputada do seu espaço inicial, foi no seu tempo o local onde realizavam as feiras e concentrações em Tomar, quando a cidade praticamente só existia desse lado do Nabão.
    Com o decorrer do tempo as feiras foram-se modificando e com cada vez menos espaço para esses eventos definharam.
    Hoje onde se pode realizar a Feira de St. Iria ? A importante feira das Passas? certamente que os moldes desses eventos são diferentes , mas nada foi programado para um novo local e com outras condições.
    Hoje Torres Novas tem a Feira Nacional dos Frutos Secos e nós passas secas…
    É evidente que a Várzea Grande tinha de ser intervencionada , mas não podia ter sido por um valor muito menor? Não podia ter sido a Câmara a fazer essa obra recorrendo aos técnicos que tem no seu quadro?
    Relembrado Paiva ” o Grande ” quando executou a inestimável Fonte Cibernética de boa memória , temos de aproveitar os fundos europeus, pois só pagamos 20% do custo , que nos dizem custar…a manutenção depois vê-se.
    Ainda hoje vêm excursões de pessoas para a admirar!!!
    Gastar mais de 3 M€ numa saloiada é mesmo a cara de quem decidiu essa “obra”
    Só falta agora preverem um passadiço que ligue a gare de comboios com o Tribunal para o bouquet ficar completo.
    Já agora sabem que existem há décadas , equipamentos de sanitários auto-laváveis e que se podem enquadrar estéticamente ??
    E por fim estes 3 M€, mais o que vai gastar com mais obras do mesmo quilate, não seria uma verba que podia ser usada para ajudar a despoluir o Nabão??

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